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05 junho 2017

| 16 - 26 |

16.
Talvez fosse o instinto. Quando a viu, menina inocente a andar sozinha na rua, o céu a ameaçar desabar em cima das suas cabeças, Novembro frio como as ausências, não pôde fugir. As mãos em cima dela como certezas, o corpo preso contra a parede, maneira nenhuma de a deixar escapar. A braguilha das calças aberta num repente, o  antebraço a sufocá-la enquanto se ajeitava dentro dela, o corpo a rasgar-se, os gritos que calou com a palma da mão. Nos olhos toda a raiva, todo o desejo, tudo o que não cumpriu noutros corpos. Lurdes seria sua para sempre.


17.
Ficava nas últimas filas, normalmente de pé, apenas a vislumbrar o escritor que apresentava a obra. Deixava-se ficar para trás na fila para os autógrafos e, quando chegava a sua vez, murmurava o seu nome de maneira quase inaudível. Regressava a casa com os livros rabiscados, quase nunca sabia o que estava lá escrito. Pousava os livros na mesa de cabeceira — haveria de os ler em breve — e ia sentar-se ao computador. Fixava a página em branco e nada acontecia. Cada vez mais longínquo o sonho de um dia ser ele a autografar os livros que tivesse escrito.

18.
Meu amor, pedes-me que me desfaça em silêncios e eu sou incapaz. Não escolhi este bater intenso do coração, nem me arrastei para este lugar quente de onde não sei sair. Já procurei nomes e definições mas termina tudo nos teus braços, na certeza de que estou onde tenho de estar. Não é que não tenha mais sítios para onde ir. Simplesmente fechei os mapas e não e importam outras geografias. Não quero saber do que há para lá dos terrenos em que nos fundámos. Não quero saber de nada que não me caiba no peito. Tu habitas-me o coração.

19.
Naquelas noites geladas em que ela se sentava à beira da minha cama, a ver-me dormir, eu inquietava-me no sono como se a sentisse. Só sabia que ela tinha estado ali no dia seguinte, porque via as mantas alinhadas de maneira diferente. Durante o dia, não perdia uma oportunidade. Puxava-me os cabelos: enrolava um punhado na mão direita e puxava, sem dizer nada. Eu deixava a cabeça descer para evitar a dor. Nunca perguntei porquê. Nunca chorei de dor. Se me via andar pelo corredor, assentava-me com um cinto nas costas. Eu continuava a andar. Esta era a minha avó.

20.
Levámos-te dentro de um pote que comprámos numa loja de chineses. Entregámos o vaso ao homem da funerária, que prometeu devolver-te desfeito em cinzas. Vinhas quente ainda. Pegámos naquilo sem saber muito bem o que fazer. Recusei colocar-te a servir de bibelot em cima da lareira. Seria demasiado irónico. Saímos do crematório sem destino. Tu não gostavas de sítio nenhum em particular. Podias ter-nos facilitado a vida, podias ter gostado de praia ou do campo, quem sabe de passear pela serra. Mas não. Gostavas era de passar as tardes a jogar à sueca no jardim... Algumas cartas ficaram com cinzas.

21.
Quando entraste fechei a porta atrás de ti, segura de ter em casa tudo quanto me faltava. Ironia, sabes? Como é que eu podia ter tudo o que me fazia falta quanto tu não me davas nada? Eras a definição de ilusão de óptica: estavas não estando, davas não dando, eras não sendo. Ofereci-te aquele lugar onde pouca gente tinha estado. Quis que ficasses confortável e que não te faltasse nada. Dei-te tudo quanto tinha, sem reservas nem medo de errar. Era a vida, sabes? Era a vida e nela havia amor. Saíste e tranquei a porta atrás de ti.

22.
Às vezes, a morte é apenas uma pequena amostra de paraíso. Morremos porque nos esgotámos em opções irrisórias. Desistimos de tentar caber em sítios onde não há espaço suficiente para nós. Foi o que aconteceu com Joaquim. Deu por si um dia esvaziado. Não tinha nada a que voltar quando regressasse a casa. Os braços estendidos ao longo do corpo, a cabeça tombada, o olhar vazio, os pés que se arrastavam sem saber que caminho tomar. Percebeu que o seu fim era o passo seguinte, o que estaria do lado de lá da curva. Caminhou até lá e deixou-se morrer.

23.
Eram punhais afiados a rasgarem-me a pele, traços fininhos de onde saíam fios de sangue que me tornavam a pele morena cada vez mais viscosa, cada vez mais aberta, cada vez mais morta. Já não chorava porque me esgotara antes disso. Deixei de querer saber. Vivia em serviços mínimos, o meu corpo fazia o suficiente para se manter vivo, funções vitais activadas e nada mais do que isso. Bloqueei a memória. Travei os desejos. Fechei-me numa cave escura que cheirava a mofo e a coisas podres e deixei-me ficar enquanto a morte se foi aproximando lentamente. Fechei os olhos. Morri.

24.
Há uma fotografia em cima do aparador. Parece uma cena inconsequente. Dois rostos colados, cabelos revoltos, ao fundo o mar. O dia estava frio. O mar picado batia nas rochas e fazia aquele barulho que nos suga e nos deixa sem chão. Abraçámo-nos com frio. Puseste as mãos nas minhas costas e puxaste-me para ti. Beijaste-me o pescoço ao de leve. Arrepiei-me. Beijaste-me embalado pelo vinho branco que bebemos ao almoço. Não sossegámos a urgência e acabámos meio despidos, a fazer amor dentro do carro, no parque de estacionamento. Eram três da tarde. Guardei as memórias, não tenho mais nada.

25.
As sombras caíam sobre o lago e tornavam-no sombrio. Nas margens, dois barcos amarrados a uma espécie de pontão. Costumava levar um desses barcos para passear por ali, só eu e o silêncio que restava depois das aves e do restolhar das ervas. Não sabia muito sobre barcos. Sabia apenas que, se remasse, chegaria a algum lado. Então remava. Sabia que não devia aproximar-me demasiado das margens: o que por norma era uma segurança, representava um perigo quando estás dentro de um barco. Não queria encalhar. Remava o  suficiente para que as dores me fizessem esquecer o resto. Nunca faziam.

26.
De início, não entendia a violência da minha avó. Era como se o mundo fosse um inimigo mortal que urgia abater. Usava as armas que tinha: palavras duras, uma voz aguda e as palmas das mãos. De vez em quando transformava-se. Deixava de ser Camélia e era outra pessoa qualquer. Conheci-lhe várias caras. Demorei muito a perceber que, na verdade, a avó Camélia não era só a avó Camélia. Também era Laura e Isilda e José. Era várias pessoas que se desconheciam entre si - apenas Isilda conhecia todas. E eu não entendia. Depois percebi e deixei o medo de fora. 

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