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03 novembro 2017

Cobra

Mudava de pele agora. Como as cobras. Mudava de pele e deixava para trás o tanto que me feriu, o tanto que me destruiu, o tanto que me transformou e me fez deixar de ser quem era, para passar a ser isto que não reconheço. Esta não sou eu. Era eu até ter chegado a devastação. Fui eu, mais verdadeira do que nunca. Depois deixei de ser. E mudava de pele agora, se pudesse.

Preciso de respirar fundo. De me encontrar no meio dos escombros. Preciso de uma estratégia para voltar à minha pele, ao meu corpo, à minha alma. Entreguei tudo o que tinha. Dei demasiado de mim. Não me arrependo. Ou talvez me arrependa, sim. Porque o preço que pago hoje é demasiado elevado. Pago com a vida que já não tenho. Esta não sou eu. Estes são os fragmentos que sobraram, mas não sou eu. E eu gostava daquela pessoa que matei com o coração. Gostava do que era, do que tinha, do que tinha para dar. Gostava dos sorrisos, das brincadeiras, do cérebro, do coração. Agora não tenho nada. Apenas um aglomerado de ruínas a tentar perceber se há maneira de voltar a colar tudo, de voltar a ser eu.

Não posso mudar de pele. Mas posso esconder-me. Desaparecer por entre o fumo. Até ser capaz de surgir novamente. Até sentir que estou a voltar a mim. Um dia. Agora ainda não. 

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