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09 janeiro 2018

Timelapse

 (Foto da Lia, Agosto 2017.)

Não sei como isto aconteceu. Anteontem estava a fazer um teste só naquela de tirar teimas, teste no bolso de trás das calças, ali esquecido até ter começado a magoar-me, duas riscas, um telefonema para a Sofia, a sala de partos, horas naquilo, seis e onze da manhã e um choro forte, ela no meu colo, ela na minha vida para sempre, mais um teste, mais umas riscas ultra-desmaiadas mas eu tinha a certeza, afinal é um rapaz, como assim?, onde é que lhe ponho os ganchos? (até ela levou ganchos no cabelo pouquíssimas vezes, preocupação mais imbecil, céus), quarenta semanas e não há maneira de isto acontecer, uma lomba na estrada, comprimido da indução a fazer efeito há duas ou três horas e pop, que barulho foi este?, foram as águas a rebentar, ai, vais-me sujar o carro todo, não vou nada que a bolsa rebentou em cima e nem uma gota de líquido até chegar ao hospital, sala de partos e assunto arrumado em três horas, cinco e trinta e oito e mais um miado banda sonora para toda a vida. Anteontem isto e agora estes dois, este tamanho, esta vida, dez anos e pouco, quase sete anos, tanta conversa, tanto mimo, os dias feitos de gritos, despachem-se que estamos atrasados, e de mimo, amo-te muito, e eu amo-te muito a ti, beijos a toda a hora, abraços apertados e um nó cada vez mais forte, cada vez menos lasso. A vida, a minha vida, não é só isto, mas é mais isto, é tudo isto, é tanto isto e eu sem isto não era nada do que sou, talvez fosse feliz, uma felicidade diferente, nem melhor nem pior, diferente e, para mim, esta é a minha felicidade, estes dois corações pequenos que fazem o meu coração tão maior.

1 comentário:

  1. Tão bem escrito este post! Ansiosa para ver esse teu livro publicado ;)

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Obrigada!