-->

Páginas

08 fevereiro 2018

Carta aberta às mães de primeira viagem

Hoje, vi no Facebook a nota sobre o regresso ao trabalho de uma amiga que foi mãe há poucos meses. Percebi nos comentários dela a mesma vivência que eu tive há quase 10 anos, quando regressei depois de ter a minha primeira filha. E apeteceu-me escrever-vos, mães estreantes que ainda não passaram por isto mas já estão a bater mal.

Resumo do que aí vem numa frase: não é tão mau como parece. Não é mesmo. Sosseguem.

(Eu explico)

Cerca de um mês antes de voltar ao trabalho, tinha a minha miúda quatro meses, comecei a pensar na vidinha: como ia ser passar o dia inteiro sem ela, como ia ser só a ver de manhã e à noite, como ia ser não acompanhar tudo, não ver tudo, não estar lá com ela para tudo. Claro que deixei que a angústia se instalasse e aquilo foi um pequeno buraco negro na minha vida. Sofri por antecipação. Sem razão nenhuma, percebi depois.

Reparem: eu tinha a sorte de ter uma filha que dormia noites inteiras desde o mês e meio de idade, já a tinha passado para o quarto dela (sim, sou o tipo de mãe que muda os filhos para os respectivos aposentos assim que eles deixam de precisar de mim durante a noite), ela era uma miúda tranquila, que basicamente comia e dormia, não era nenhum  diabo da Tasmânia (agora é...). E eu tinha medo do que aí vinha, por perder aquele tempo com ela.

Por volta desta altura, a pediatra mandou introduzir os sólidos, para ser eu a fazer a habituação dela. Não me passou pela cabeça insistir na amamentação exclusiva pelo menos durante seis meses (e ainda bem, porque assim que voltei ao trabalho fiquei sem leite).

Portanto, mais isto: não era eu que lhe ia dar a comida, não era eu que ia ver as gracinhas dela, não era eu que... nada. Era a ama. E a ama era uma rapariga porreira, que tinha uns 26 anos e três filhos, tinha sido mãe aos 17 anos, estava mais do que apta para a coisa (depois teve mais uma filha, antes dos 30, e não sei se parou por aí, que entretanto perdi-lhe o rasto).

Bom, lá voltei. Sei que era Maio, os dias estavam a ficar maiores, eu ia beneficiar de duas horas de redução de horário, portanto ia sair às 16h30 e...

O primeiro dia foi um bálsamo. Olha, pessoas crescidas! Olha, assuntos de adultos! Olha, não tenho de mudar de fraldas! Olha, não tenho de estar a ouvir o Panda... E soube bem! Soube muito bem! À tarde, quando regressei, enfiei o nariz no pescoço dela e a vida seguiu. Ela estava bem, eu estava bem. Adaptámo-nos. Foi fácil. Passei a ter as duas valências: era uma mulher que trabalhava durante parte do dia, era mãe no resto do tempo. Também era mãe quando estava a trabalhar e, nos dois ou três primeiros dias, as mamas avisavam quando eram horas de ela comer, mas isso acabou rapidamente.

Percebi que tinha andado preocupada para nada. Custou muito menos do que pensei. Acho que não chorei, sequer. Quando passei por isto tudo uma segunda vez, fiz a coisa de outra forma: não pensei em nada disto antes de voltar. Limitei-me a saborear os cinco meses de licença e a voltar calmamente, quando chegou a altura. E foi muito melhor.

Portanto, e voltando ao início, isto não é tão mau como possam pensar. Não custa tanto quanto possam pensar. É uma fase e faz parte, mas tem um lado bom, que é dar algum descanso à cabeça cansada de mãe que, por muito fáceis que os filhos sejam, arranja sempre maneira de se entreter com alguma coisa.

O meu conselho, se é que há um conselho válido é este: relaxem. Aproveitem o tempo para vocês. Aproveitem para se reencontrarem para além da maternidade. Antes de serem mães já existiam e o vosso valor não se esgota na maternidade. E vão ver que, em menos de nada, já se habituaram à rotina e tudo está bem na mesma.

2 comentários:

  1. Isto está tão bom! Como a mãe de primeira viagem que sou, confesso que a adaptação foi de longe mais leve e fácil do que esperava. Minha e dele.
    Só choraminguei um pouco de véspera e fiz questão de aproveitar ao máximo. Acho que só me angustiei para aí uns 15 dias antes de voltar.
    No meu caso a coisa complica-se apenas de manhãzinha porque tenho de sair cedíssimo com ele e entre tralha, sonos, frio e o facto dele não gostar de andar de carro, faz-me uns nervos... depois de tudo confesso que ir trabalhar parece-me um descanso! A minha maior angústia era mesmo essa. Felizmente esta semana tinha o pai para ajudar, para a semana já estou por minha conta mas estou mais confiante.
    Mas ainda assim acho que teria cumprido uma licença de um ano na boa se tivesse esse benefício, não me custou nada ficar estes meses a cuidar do meu miúdo, adaptei-me bem à vida de mãe é dona de casa suburbana. Mas há espaço para tudo na vida, de facto. Próximo passo é voltar a ter vida social e saídas de amigas e essas coisas. :D

    ResponderEliminar

Obrigada!