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16 abril 2018

Fátima - a experiência

(Decidi dividir o texto em dois, porque estava prestes a escrever um lençol de texto e achei melhor não massacrar...)

Bom, se leram o post anterior sabem que a minha fé é uma cena muito, muito, muito ténue. Eu sabia que, indo a Fátima com um grupo da Paróquia de Belas, ia ter de conviver com a religião em modo MUITO durante aqueles dias. Tudo bem por mim, desde que não tentassem o método da lavagem cerebral.

Logo antes da partida agruparam-nos e deram-nos uns livrinhos que seriam o guia da semana. 120 páginas de orações, textos do Papa Francisco e cânticos. Tudo alinhado por dia e hora, bem organizado e tal. Respirei fundo.

A dar o pontapé de saída, uma missa. Às cinco da manhã. Eu a cair de sono porque só consegui dormir uma hora e meia nessa noite - a intenção foi boa, deitei-me às 19h, às 20h estava a dormir, mas acordei às 21h30 e não consegui voltar a adormecer... e a minha hora de levantar era às 3h, porque o get together era às 4h. Arrancámos às 7h, mais coisa menos coisa - e eu já pronta mas era para me deitar.

Percursos com estrada, com mato, com lama pra caraças. Pequeno-almoço em Caneças e tudo tranquilo. Um bocadinho antes da paragem do almoço, nos Bombeiros de Bucelas, comecei a sentir umas dores estranhas nas virilhas. A tentar defender isto, às tantas já me doía o joelho esquerdo. E as ancas. Já nos bombeiros, fui às massagens e a coisa melhorou. Tínhamos andado 26km. A seguir ao almoço andei mais 5km e, quando dei por mim a chorar de dores, assumi a derrota e fui para o carro de apoio. E chorei, chorei, chorei... porque a minha promessa não envolvia carros.

Pelo meio, muitas orações. E, nos intervalos, o convívio normal: conversas aqui e ali, nada de mais. Eu levei uns quantos audiobooks preparados e tinha esperança de poder ir com os phones nos ouvidos. Despachei três livros e meio naqueles dias. Fui sossegada, na minha. Em grupo, quando tinha de ir em grupo, sozinha nas outras alturas.

Os fins de dia foram sempre iguais: chegar aos sítios onde íamos dormir, tomar banho (só apanhei um sítio sem água quente e sobrevivi), jantar, mais orações e dormir. Na manhã seguinte, a alvorada era às 4h30 e foi sendo feita com música (Anitta no primeiro dia, Muse no terceiro), tampas de panelas e panelas a bater aos nossos ouvidos (no segundo dia) e apitos de árbitro no último dia. Um mimo... e provavelmente as alturas do dia em que fui menos católica, tive vontade de esganar pessoas e disse MUITAS asneiras para dentro. Porque, basicamente, estávamos em pavilhões desportivos onde teria bastado acender as luzes. Mas siga.

As refeições foram sempre asseguradas pelo cozinheiro e pelas assistentes e estava tudo muito bom. Nada a apontar - até porque, num dos dias em que eu não ia comer porque grão num bai dar, o cozinheiro guardou um bocadinho do jantar da véspera para mim.

Voltando ao percurso: no segundo dia, já mais descansada (depois de muitas massagens com o tal gel dos cavalos), tentei de novo. Mais 5km, em mato, com muita lama, e não aguentei mais. Ainda fui tentando uns bocadinhos, sempre com o mesmo resultado: carro de apoio. Ao terceiro dia, idem. No quarto dia, além de estar um temporal absurdo, era o dia com mais subida em montanha e eu não arrisquei. Mas fiz os últimos 5km, a chegar a Minde, porque era estrada a descer. Não custou? Custou, pois... mas paciência. Quis defender-me porque queria MESMO fazer os últimos 17km, que eram o percurso do dia da chegada a Fátima. E fiz. Com dores, meio coxa, mas fiz. Encharquei-me em Voltaren nestes dias, acompanhei com Brufen, mas o alívio era temporário. (Depois de chegar a casa, andei mais três dias nisto, até que desisti e fui ao hospital. Resultado: bursite na pata de ganso, drogas duras, emplastro no joelho durante sete dias, um a canadiana - que já descartei porque me fartei de tropeçar - e o descanso possível.)

Chegar a Fátima foi o que eu esperava, mas, ao mesmo tempo, não foi o que eu esperava e eu sei exactamente porquê: estava demasiada gente à minha volta. Fátima tem sempre o efeito lágrima em mim, quando estou sozinha ou com pouca companhia. Ali isso aconteceu, mas senti que precisava de ter estado mais sozinha, mais recolhida do que estive. Ainda assim, promessa cumprida (porque andei o que consegui, não parei por preguiça, foi o que foi).

Ouvi vários "para o ano, quando vieres...". Oi? Para o ano, quando for? Nunca mais na vida. Enquanto eu me lembrar disto, não mesmo. Porque, lá está, falta-me a fé para ver isto como um retiro e não como um sofrimento duro. Falta-me a fé para achar que basta pôr um pé à frente do outro. Falta-me a fé, ponto. Nada a fazer.

Saldo? Positivo. Missão cumprida. E a melhor parte é mesmo a minha mãe, viva, com saúde, sem sequelas do que teve, impecável. Essa é a parte mais bonita disto tudo. Sempre.

1 comentário:

  1. Gostei muito de ler a experiência... Bão é fácil!
    Beijinhos,
    https://chicana.blogs.sapo.pt/

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Obrigada!