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07 maio 2018

Esta coisa de ser mãe


Nota prévia: eu sou um tractor e hoje acordei particularmente... coise.

Vamos por pontos, para facilitar a leitura.

Ponto 1: sou mãe. Não sou Mãe, não sou A MÃE, não sou nada a não ser mãe. Igual às outras todas. A tentar fazer o melhor que sei e posso com o que tenho. A tentar ser uma espécie de amortecedor para eles, para que as arranhadelas da vida não lhes cheguem ao osso (hão-de chegar e eles hão-de sobreviver. Haven't we all?).

Ponto 2: os meus filhos são dois seres humanos normalíssimos. Não são a versão 2.0 do Cristiano Ronaldo, não são membros do Mensa (google it, vá), nada disso. Dois miúdos normais. Difíceis, na maior parte dos dias. Como todos os miúdos (ou quase, vá).

Ponto 3: eu não sou a rainha da paciência infinita. Nada mesmo. Aliás, a minha paciência é uma espécie de beco sem saída, quando dás conta já acabou. Calha também que eu tenho uma voz potente. E graças a anos de teatro sem microfones, tenho uma boa colocação de voz. Isto faz de mim uma mãe que grita.

Ponto 4: a parentalidade positiva é (teoricamente) muito bonita mas não é para mim. Sou a mãe, logo sou a figura de autoridade, logo sou eu que mando. Ponto final. Sem discussão. Além disso, tenho, de há muitos anos a esta parte, uma espécie de lema de vida: não negoceio com terroristas. De espécie nenhuma. Não cedo a chantagens. De espécie nenhuma. E escolho as minhas guerras. Aquela coisa de o menino quer, o menino tem não é para mim. Faz-me rir, aliás. A palavra que eles mais ouvem da minha boca (além dos nomes deles, chamados uns decibéis acima do aceitável, mil vezes ao dia) é NÃO. Com as letras todas. NÃO. Tão bom.

Ponto 5: a minha missão enquanto mãe é prepará-los para a vida. Não é fazer deles pequenos déspotas que acham que podem tudo. Lamento, não sou essa mãe. Nem quero ser. Sou a mãe que ensina, que ajuda, que exige. Também sou a mãe que fica super orgulhosa quando eles atravessam as etapas de crescimento normais. Ontem, por exemplo: a minha filha fez-me panquecas para o almoço (sozinha, sem me perguntar nada: um ovo, bebida de arroz, farinha, um fio de aceite no fundo da frigideira, fogão aceso - e se aquilo é difícil de acender, senhores! - e cá vai disto... pequeno-almoço trazido à cama), o meu filho tomou banho sozinho e eu nem sequer estava na casa-de-banho.

Ponto 6: não perco muito tempo a pensar nestas coisas da maternidade. Os dias seguem, eu ajo e reajo conforme as coisas acontecem e pronto. No big deal.

Ponto 7: falho muito. Se calhar devia ser mais permissiva, se calhar não devia ser a nazi das tecnologias (mas sou e não vou deixar de ser, lamento. Aquela coisa de miúdos pequenos agarrados ao Youtube não é para mim), se calhar devia espojar-me mais no meio do chão a brincar com eles. É o que é. Tento o meu melhor. O meu melhor, às vezes, não presta. Acontece. Este fim-de-semana, por exemplo, entre as mil coisas que fizemos não houve tempo para vermos um filme juntos. E o miúdo ontem queixou-se. E eu prometi que, no próximo fim-de-semana juntos, vemos dois filmes. All good. Ninguém se magoou.

Ponto 8: sempre quis ser mãe. Não sei se me sentiria completa se não tivesse filhos. Nunca vou saber. Sei que estes filhos que me calharam são um desafio constante. E ainda bem.

Ponto 9: interlúdio para dizer que aquela merda que muitas mães dizem "obrigada por me teres escolhido para ser tua mãe"... please. Por amor da santa. Lotaria. Ninguém escolheu nada. Lotaria, simplesmente.

Ponto 10: nestes dez anos e pouco de maternidade, há um peditório para o qual eu não dou: o da culpa. Faço o melhor por eles. Não me esqueço de mim. Não vivo em função deles. Vivo com eles. eu tenho as minhas coisas, eles têm as deles. Eu preciso do meu espaço e do meu tempo e não me sinto culpada por isso. Sei que seria absurdamente infeliz sem isto. E ninguém merece uma mãe infeliz. Dou a minha vida por eles sem pestanejar. Mas enquanto pudermos viver os três, então vamos viver de maneira a sermos todos felizes. E ninguém anula ninguém, ninguém se sobrepõe. Porque, no fim de contas, somos três seres humanos a quem cabe coabitar e, portanto, é bom que a coisa aconteça sem grandes dramas. Digo eu, que sou apenas mãe. Sem merdas.

Ponto 11: não sou a melhor mãe do mundo. E não quero ser. Aliás, nem tinha dado conta de que havia um campeonato. Não entro em comparações. Os meus sapatos sou eu que os calço e não calço os sapatos de ninguém. Portanto não quero saber se a Maria é mais isto ou aquilo e se a Joaquina faz assim ou assado. Esta mãe sou eu, destes filhos que são meus. É a vida. Lotaria, já disse?

6 comentários:

  1. Adorei! Assino por baixo e podia mesmo ter sido eu a dizê-lo! Na integra! Tudo! Todo ele!
    Parabéns pelo texto! ;)
    Sandra Amaral (Livromente)

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  2. Olá Lénia, Vim cá comentar, para dizer que adorei ler este texto. Crú. Tal e qual com o que me identifico. Sem artificialismos. Parabéns.

    Beijinho, Joana.

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  3. Penso como tu em tudo, e vamos a ver como é que a coisa se desenrola para o futuro, porque por muito que me queira tornar a nazi da tecnologia, o pai é de longe mais permissivo que eu e já há uma irmã mais velha com muito facilitismo e quilometragem de ecrã (se entrarmos em comparações vai ser complicado)... coisas difíceis de gerir mas lá está... levar um dia de cada vez e aprender tudo o que posso aprender daí. É um work in progress.

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  4. Um texto verdadeiro e realista. Porque foi assim que sempre as mães sobreviveram a esta coisa de ter filhos.

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  5. Hear! Hear! ♥ A culpa...bom...às vezes há cenas que os meus já me dizem que me acertam em cheio nos pontos nevrálgicos das minhas fragilidades, enquanto pessoa/mãe. (e não estou a falar de faltas de educação, que essas não tolero) E às vezes é difícil para caraças gerir sem levar tudo a peito. Mas tenho que me aguentar. Digo mais, como no amor, isto de ter filhos não é como nos filmes. E o nosso mal, como em tudo na vida, são as expectativas. Beijinho ♥

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  6. Adorei e revi-me muito, só tenho é de trabalhar essa parte da culpa mas de resto sinto as coisas da mesma maneira. Gosto do seu pragmatismo e acho que é por isso que a sigo. Se calhar também sou um tractor ;) bj

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Obrigada!