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06 junho 2018

One Red Crow #1


Enquanto me prendem os braços e me guiam os passos, sigo em silêncio com a língua torpe pela medicação. As paredes muito velhas, o chão demasiado sujo, anos de diabos à solta neste lugar. As janelas com grades soldadas, nem que parasse de comer caberia entre elas. Amarram-me os braços, mas não os pensamentos. Eu sei onde estou e sei que não vou conseguir fugir. Eu sei o que me destruiu, as mãos que me desfizeram como quem desfaz um pedaço de giz até se tornar pó. Eu sei tudo o que deixei lá fora, as angústias e os medos, as noites que acordei ensopada em suor, as vozes, sempre as vozes que me perseguem e me ordenam que cumpra todas as minhas missões, as sombras sempre em cima de mim, esteja o sol onde estiver, até à noite, o absoluto breu e ainda assim as sombras. Eu sei tudo sobre os meus crimes, os pecados que nunca expiarei, a sentença que escolhi para mim. Nas paredes muito sujas, no chão imundo, nas portas empenadas, algumas sem maçanetas, em todos os silêncios todos os gritos de quem não se consegue libertar.

| Fotografia de João Corvo |

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