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07 junho 2018

One Red Crow #2


Primeiro fomos as promessas. Todas as coisas indizíveis tiveram de ser ditas, no pus das feridas antigas, algumas ainda por cicatrizar. Cartas na mesa, toda a luz que podemos ver. Queríamos jogo limpo, guerra aberta, silêncio e conforto, o acordar que deixa um fio de baba na almofada, saber que preferes o lugar à esquerda na cama, saberes que eu nunca durmo nua, saberes que prefiro banhos demorados e que abras o cortinado e te juntes a mim, o sexo e a água que escorre, a tua língua dentro de mim, as minhas unhas que te rasgam a pele, mais ou menos por cima das cicatrizes, o beijo que me dás no canto da boca quando me sentes amuada com ou sem razão, tanto faz, todas as desculpas são boas para os beijos. Primeiro fomos as promessas. Depois as promessas quebraram-se como jarras pesadas atiradas contra uma parede, a mesma onde me prendias quando fazíamos amor, a mesma onde pendurámos fotografias com sorrisos maiores do que nós. No chão, todos os despojos, uma vida em mil bocados, o puzzle a que faltam peças, a obra que é impossível recuperar. Falámos em futuro e hoje conjugamos todos os verbos num pretérito imperfeito como são os amores que acabam partidos, atirados contra uma parede, como são todos os amores que um dia foram esperança e hoje não têm salvação.

| Fotografia de João Corvo |

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