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12 junho 2018

One Red Crow #3


A divisão era sempre injusta para alguém. Nunca tirava a casca, a confiar que fosse ali que se acumulasse a maioria dos nutrientes. O estômago a fazer-me ensurdecer com os barulhos de quem mói em seco, de quem se angustia no vazio. As noites eram sempre longas, o pico de insulina que vinha depois do doce daquela pêra, único alimento de um dia inteiro, dividido por três, eles, sempre eles, e eu ficava a engolir saliva devagarinho, a tentar enganar o corpo, a tentar dizer ao cérebro que sim, aquilo era alimento e não precisava de mais nada. A pêra que dava para os três, raquíticos e pequenos para a idade, comiam na escola e ao fim-de-semana aquela pêra era a materialização do paraíso, o melhor momento do dia, o que os fazia esquecer por uns instantes que, quando acabasse, não haveria mais nada a fazer. Sessenta anos depois, a pêra nas minhas mãos, a casca lavada mas nunca deitada fora, várias pêras por dia, a abundância que chegou entre suor e sacrifícios, nenhuma refeição tem o sabor opulento que têm as pêras.

| Fotografia de João Corvo |

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