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14 junho 2018

One Red Crow #4


Éramos cinco lá em casa, mais os gatos que apareciam para deixar dos cadáveres dos peixes apenas as espinhas. Éramos cinco e éramos tantos, a mãe entregue ao fogão e ao tanque, o pai dobrado sobre a enxada, vereda acima, vereda abaixo, traz legumes, leva água, e nós aos saltos no quintal, os sapos à beira do poço, os morangos que roubávamos, os figos que apanhávamos do chão quando o calor era insuportável, os cabelos sujos, as mãos encardidas, os joelhos esfolados, o tempo que voou até a casa se encher de musgo, até a humidade enegrecer paredes, até os cabelos da mãe branquearem, até o reumático atirar ao chão o pai, depois o Alzheimer e nós às vezes a brigar porque não podíamos, nas vidas que entretanto construímos, acolher o nosso sangue, mas queríamos o melhor e achávamos sempre que o outro irmão conseguia mais. A casa tornou-se ruína, deixámos intacto o vaso onde a mãe tinha uma violeta que nunca deixou morrer, do lado de fora da janela os galhos fartos tomaram conta do esquecimento, descuidámos, saímos dali e deixámos o nosso passado arrumado naquela casa de onde trouxemos uma infância esquelética. Podíamos ter sido tanta coisa e fomos as sombras e os sons que ainda ecoam pela casa, se fecharmos os olhos e deixarmos o passado surgir.

| Fotografia de João Corvo |

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