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19 junho 2018

One Red Crow #5


Ficava sempre do lado de fora do quarto enquanto cuidávamos das escaras da dona. Sete anos naquela cama, o cheiro do tempo a morrer devagar, a morte em cada inspiração, a dor em cada expiração. O gato, calado, e aqueles olhos verdes, o brilho todo de quem ama mas não entende que em breve deixará de ter para quem olhar, deixará de ter o cheiro a medicamentos e produtos de limpeza, deixará de ouvir o barulho das luvas e das batas, os gemidos cada vez menos audíveis. A cadeira rasgada de anos de brincadeira, Não subas para aí, Simba, e o gato a subir e a afiar as unhas, o tecido a rasgar, Eu bem te disse para não ires para aí, que teimoso, a cadeira que passa a ser do gato, Queres subir, sobe, quero lá saber, e o ronronar feliz de quem se sente em casa, de quem fez ninho dentro de um coração. Depois, o gato parado à porta do quarto, o verde dos olhos menos brilhante, o silêncio de quem se despede, o barulho do saco a ser fechado, duas festas no alto da cabeça e a incerteza do que virá a seguir.

| Fotografia de João Corvo |

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