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26 junho 2018

Pride

O Isaac nasceu "Maria". Mentira. O Isaac nasceu Isaac mas ninguém sabia e, facto visível oblige, foi "Maria" durante uns anos.

Quando conheci o Isaac, ele ainda era "Maria" - e eu sempre soube que ele era Isaac, apesar da "Maria". Não havia nada que não o mostrasse na sua postura, na sua forma de estar, na sua atitude. Fui das primeiras pessoas a saber que o Isaac ia passar a ser efectivamente Isaac e que a "Maria" tinha os dias contados. Aquele miúdo de 17 ou 18 anos tinha uma clareza de pensamento atroz. Uma maturidade, uma força que era impossível não notar. Começou o processo. Sei que foi duro, sei que não foi fácil, sei que ainda não é fácil, mas o Isaac é aquela pessoa que leva tudo à frente.

O Isaac tem ao seu lado as pessoas certas: uns pais que são do catano (são mesmo, ele e ela, cada um à sua maneira, dois pilares que não vergam e que, mesmo quando não concordam com tudo, fazem o que têm a fazer que é apoiar incondicionalmente o filho), uma namorada que é uma mulher do caraças (porque só uma mulher do caraças vive assim, com a maior das naturalidades uma coisa que nem toda a gente entende, que nem toda a gente aceita, mas ela está-se nas tintas para isso tudo que a vida é deles e isso é que importa), uma avó que vive no presente e não no passado e que é uma miúda espectacular (e sim, o termo "miúda" foi propositado!), amigos que são a rede de que toda a gente precisa.

O Isaac resolveu que queria ser para os outros aquilo que não teve quando precisou: um exemplo, um caso de sucesso, uma voz activa que mostra o caminho. Foi por isso que nasceu o documentário sobre o processo de transição do Isaac. Foi por isso que o Isaac assumiu o papel de cara de uma realidade que se quer normalizada e aceite, como todas as realidades.

Um dia, eu tive de explicar aos meus filhos por que é que a "Maria" agora se chamava Isaac. Eles ainda se lembram da "Maria", mas nunca lhe trocaram o nome. É o Isaac. Para mim, a mesma coisa: desde o dia em que soube que ele seria Isaac, mudei o nome com que tinha gravado o número dele no telemóvel e acho que nunca me enganei.

O Isaac é a face do Orgulho. E eu tenho um orgulho do caraças neste miúdo que faz o que for preciso para ser quem é, que não se dobra perante o que os outros possam pensar, que está a fazer da sua vida a vida que sempre quis viver. Tenho a certeza absoluta de que o nome dele e a obra dele perdurarão muito para além dele. Tenho a certeza de que a comunidade transexual portuguesa vai sempre saber a sorte que tem por ter tido um Isaac a abrir caminho e cabeças. Orgulho em ti, miúdo. Muito orgulho em ti.

O documentário está aqui. Invistam uma hora da vossa vida nisto. Vale TUDO a pena.  

1 comentário:

Obrigada!