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05 junho 2018

Self love


Demorou muito tempo. Foi um processo longo, cheio de avanços e retrocessos. Não foi linear. Não quer dizer que não volte a dar dois passos atrás, que não tropece, que não resvale. Mas sei o que tenho hoje. E é só com isso que posso contar. Ah, e para que saibam ao que vão se decidirem continuar a ler isto: não há aqui réstia de falsas modéstias. Considerem-se avisados.

Durante muito tempo, não gostei de mim. Ou melhor, não gostei do que via quando olhava para mim. Feliz ou infelizmente, os cérebros são órgãos que não estão à vista. Esse sempre foi, para mim, o meu verdadeiro ponto forte. Anos e anos a ser o patinho feio. A ser gozada por não ser magérrima, por ter olhos rasgados, por usar óculos, por ter um nariz enorme, com um alto generoso, cortesia dos óculos que ali fazem casa, por ser "demasiado" inteligente. Bullying à séria. De alguma maneira, fui passando entre os pingos da chuva. Fiz a minha vida. Tive os namorados que tive de ter. Fui melhorando isto e aquilo. As inseguranças nem sempre se iam embora. Continuou a haver o peso a mais, a celulite, a barriga saliente, o rabo enorme. Também continuou a haver os olhos rasgados, o nariz enorme, o queixo enorme, as pernas bem torneadas (e que ganham músculo num instante e ficam rijas e definidas). 

Não sei exactamente quando se deu este click. Este "gosto tanto de mim, exactamente como sou". É paz. É saber que não preciso que me digam que sou bonita - nunca serei bonita, sou diferente, talvez tenha um charme qualquer, uma aura, um "je ne sais quoi". Não é aquela beleza clássica nem tem de ser. Neste momento, sinto-me tão em paz comigo, tão plena, tão serena, tão segura. Aceito o que não aprecio tanto. Deixei de ver a celulite e a barriga e o alto do nariz. Vejo o conjunto. Continuo a ver o cérebro. Vejo a paixão que ponho nas coisas. A maneira solta como me entrego ao que amo. A maneira voraz como corro atrás do que quero. A inquietude de quem sabe que ainda não está onde quer estar, mas já descobriu o caminho. Um passo de cada vez. Com a maior das calmas, com toda a serenidade.

De caminho, deixei de me pôr a jeito de ser magoada. Respeito-me muito mais. Fecho portas quando as tentam atravessar de viés. Não forço chaves em fechaduras que não são minhas. Sigo o meu caminho com a certeza de que cheguei ao ponto em que sempre quis estar: o ponto em que me amo, independentemente de ser amada por outras pessoas. O que vier é lucro. O break-even já é meu. 

Esta sou eu. Com a certeza de que me encontrei e de que amo tudo o que sou. Isto é amor próprio, auto-estima, segurança. Não é petulância nem convencimento nem ter rei nenhum na barriga. É a paz que todos devemos ter no amor que temos por nós mesmos. Porque, meus amores, a única pessoa que sempre esteve connosco, que vai estar sempre connosco até ao fim, somos nós mesmos. E é essa que é imprescindível amar acima de qualquer coisa. Todos os dias. Com tudo o que temos de bom e com tudo o que temos de mau. 

4 comentários:

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