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22 junho 2018

Travão

Podemos pôr um bocadinho o pé no travão e ser racionais, por favor? Só por uns instantes, vá. Eu explico usando um exemplo prático...

1985. Lénia na escola primária. A escola ficava a uns 200m da minha casa, tinha uma rua pequenina que era preciso atravessar. Primeira semana de aulas, mãe a levar-me lá. Da segunda semana em diante, desemerda-te. Apanhei uma professora do tempo da outra senhora, havia uma régua de madeira que era um elemento educativo e a coisa andava. Como se pode ver, sobrevivi.

1987. Mudança de escola e de professor (a outra escola foi demolida para dar lugar a um parque de estacionamento). Professor do tempo da outra senhora, havia uma régua de madeira que era um elemento educativo e a coisa andava. Como se pode ver, sobrevivi.

1985-1989, depois das aulas: às vezes ficava em casa dos meus avós, outras vezes ficava sozinha em casa. Envolvia aquecer o almoço e comer. Não tínhamos microondas. Sobrevivi.

1989. Acaba o 4º ano, vai para o ciclo. A escola ficava a uns 3 ou 4km da minha casa. Os meus pais não tinham carro. Não tinham carta de condução, sequer. Na minha terra não havia autocarros. Sobrava o quê? Pernas, esse veículo de transporte complicadíssimo. Primeiro dia de aulas, alguém foi comigo, para eu conhecer o caminho. Daí em diante desemerda-te. Chove? Azar. Leva um chapéu. Faz sol? Fixe. Entras às 8h? Orienta-te de maneira a que estejas lá a horas. Adivinhem. Estava. Acabaram as aulas? Caminho de volta para casa dos avós (que era perto da minha) ou para a minha casa. Fazer trabalhos de casa, almoçar, ocupar o tempo sem destruir coisas e sem pôr vidas em perigo e ai de mim que fizesse merda. Sobrevivi.

1991. Farta daquela escola, peço aos meus pais para ir para a escola secundária mais perto de casa. Queria ir para ao pé dos "crescidos". Ah e tal, tens 12 anos, vais estar no meio de gente muito mais velha. E? Assim vou conhecendo as pessoas e adapto-me. Fiquei seis anos naquela escola. Sobrevivi.

1985-1997: Lénia rima com ténia. E é parecido com lêndea. A Lénia é caixa-de-óculos. A Lénia é horrível. A Lénia é a melhor aluna da turma. Os professores gostam da Lénia. Lénia rodeada por seis ou sete colegas e "tu vais apanhar nos cornos porque és demasiado inteligente e isso faz-nos parecer mais burras" (não apanhei). Lénia não era a miss popularidade. Lénia não usava roupa de marca. Lénia não tinha o último grito em mochilas e afins. Os pais da Lénia nunca foram à escola pedir contas aos meninos que faziam bullying agressivo à sua rica filha. Adivinhem. Sobrevivi.

Ai que o menino vai mudar de escola e ficar sem os amiguinhos. Ai que o menino vai mudar de professor e pode calhar um qualquer. Ai que o menino vai para uma escola nova cheia de meninos grandes e coitadinho pode ser engolido vivo. Ai que o menino tem de levar com comentários de outros meninos e pode ficar traumatizado. Ai que o menino não pode andar dois metros a pé para ir para a escola. Ai que o menino tem de ter tudo o que pede senão fica traumatizado. Ai que o menino coitadinho é incapaz de sobreviver e vai falecer de desgosto.

Foda-se. Exactamente quando é que nos transformámos nos imbecis que se esqueceram do que viveram e espetámos com os nossos filhos dentro de bolhas de vidro, coitadinhos dos meninos que são tão frágeis? Exactamente quando é que perdemos o cérebro no processo?

Estamos a criar gerações de inaptos. Culpa nossa. E que tal deixarmos de ser enconados e deixarmos os miúdos serem miúdos? E que tal deixarmos de ser airbag para tudo na vida deles? E que tal deixarmos de ser parvos?

Flash news: sobrevivemos todos. E no fim morremos todos.

8 comentários:

  1. Clap! Clap! Clap! Ontem fui às compras com a minha irmã depois do trabalho. ora pois que não foi rápido e liguei à prole a avisar que ia chegar tarde, e que jantassem o que houvesse (cereais, pão, mãe horrível, isto lá é jantar nutritivo) Ah, que não nos apetece cereais e acabámos com o pão ao lanche. Sugeri que fossem ao café lá do bairro comer um prego. Têm dinheiro nos mealheiros, depois devolvia o montante aos mealheiros quando chegasse. Ah, que não nos apetece sair de casa agora. Ok. Desenrasquem-se. O pai não está, eu vou chegar tarde. é a vida. E desenrascaram-se. Ela fez um esparguete com molho de tomate sozinha pela primeira vez e fritou umas salsichas e um ovo. Coitadinha! Um trauma. #sqn Ele comeu cereais mesmo que se armou em preguiçoso.

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  2. Posso aplaudir de pé?! Tantas vezes isto passa-me pela cabeça. Mas calo-me para não ouvir o "não és mãe, não percebes!".

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  3. Todos sobrevivemos , mas a que preço? Se eu pudesse evitar o bullying e esse tipo de abuso ... eu evitaria ( não eh o meu caso porque não tenho filhos, mas tenho sobrinhos). Acho que se podem poupar muitas sessões de terapia mais tarde com alguns cuidados agora. Compreendo o ponto de vista , mas não poso concordar.

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    1. Angela, eu sofri o bullying que referi ali em cima. E o tanto que não referi. Não me esqueço, mas não me traumatizou. Nem fiz o mesmo a outros, como vingança ou seja lá o que for. Eu tinha as ferramentas para me aguentar. A maneira de evitar o bullying é ensiná-los a defenderem-se, não é fechá-los em casa, longe do que possa acontecer. O problema é que os nossos miúdos são de tal forma superprotegidos que não conseguem lidar. E depois sim, acabam com os costados na terapia. E mais: muito do bullying era evitado se os pais dos bullies lhes ensinassem uma coisa ou outra, em vez de os protegerem de tal modo que eles acreditam que podem tudo...

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  4. Lénia,
    Concordo com tudo o que escreveu e concordo com o que escreveu no comentário anterior.
    Sem dúvida que os miúdos de hoje em dia são híper-protegidos e é exactamente por isso que se tornam bullies e acham normal ofender e magoar os outros.
    Ainda assim, e como mãe de uma miúda que sofre de bulling na escola (8 anos), a ela dou-lhe as respostas que a Lénia aqui refere (responde-lhes, mostra-lhes que sabes ser melhor do que eles, ignora-os quando estão a ser parvos, etc.) a verdade é que quero mudá-la de escola... custa-me que ao final do dia ela venha triste e sozinha para casa... que não consiga (durante um ano inteiro) ter feito um único amigo na escola! Logo ela que faz amigos em todo lado!!! E ela sofre com isso, claro que sim! Eu respondo-lhe aguenta-te, mas vamos tentar outra vez noutro lado.. para ver se pelo menos alguns dias chega entusiasmada a casa e não profundamente triste...

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  5. Eu sofri de bullying entre o 7º e o 9º ano e sobrevivi, é certo! Mas fiquei com traumas que acho que nunca vão passar e acredito mesmo que isso me condicionou em várias coisas da minha vida. Tenho 30 anos e ainda fico nervosa quando passo no meio de um grupo de miúdos do ensino básico. Fui muito gozada, durante 3 anos, e quando for mãe acredito que vá tentar proteger os meus filhos de situações idênticas ao que eu passei. Não quero cair no exagero, mas há coisas que se puder evitar, assim o farei.

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  6. Acho que todos nós sofremos de bullying na nossa época - se bem que como nasci em 1970 sou mais velha que a Lénia - e a minha terapia era andar na rua a brincar com os outros miúdos.
    Também eu desde a minha 2ª classe ia para a escola sozinha, para as aulas de francês, aquecia o meu almoço e lavava a loiça e ia para a escola.
    Também tomava conta da minha irmã mais nova que eu, enquanto os meus pais iam trabalhar os dois para outra terra e chegavam tarde a casa.
    Não digo que não é nosso dever protegê-los no que pudermos, mas muitos miúdos desta geração não sabem fazer nada e sim a culpa é nossa. Qualquer coisa que agora acontece lá vão os pais ralhar com colegas e professores.
    Eu sempre disse aos meus que não batessem nos outros miúdos mas que se defendessem quando acontecesse algo do género, mas nunca fui tirar satisfações à escola.
    Sobrevivi sim e os meus filhos também. Um já trabalha e o outro é feliz na escola. Porque problemas inerentes a cada idade todos têm. Cabe-nos a nós dar-lhes ferramentas para que possam crescer pessoas boas e felizes.
    Não conhecia o teu blog e fiquei muito agradada com o que escreves.
    Parabéns
    Marta

    https://pitinhosdamarta.blogspot.com/

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Obrigada!