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31 julho 2018

One Red Crow #11


E é como se, para te tocar, tivesse de desfazer-me em mil pedaços, vidros partidos, o murro que dás na janela, a mão a sair do outro lado, o sangue que escorre lento pelo antebraço, partículas de vidro que se cravam na pele, horas no gabinete de enfermagem, a enfermeira de óculos presos na ponta do nariz, ai menina que isto é que foi, nunca mais daqui saímos e tu nem um ai, a dor é uma ausência como outra qualquer, é como se no teu peito vazio não houvesse espaço nenhum, ainda que nada aí dentro, ainda que todos os silêncios, ainda que os olhos baços e vazios, ainda que tu já nem saibas bem quem és, e não sintas coisa nenhuma, nem os vidros enfiados na carne. É como se, para te tocar, tivesse de ausentar-me de mim e viver de fora, não ser eu, ser outra coisa qualquer porque isto que eu sou está tão longe do que amas e esta estrada é um caminho que te recusas a percorrer.

| Fotografia de João Corvo |

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