One Red Crow #7

julho 03, 2018


E então as vozes e o poder, e eu no canto mais escuro, no beco mais sombrio, no passado mais distante, o fantasma e a euforia, os comprimidos engolidos em barda, as lágrimas já gastas, os cortes nos pulsos e nas pernas e no peito, os cabelos desalinhados e sujos, os dias intermináveis, o silêncio, o vazio e o silêncio, depois as vozes e os gritos, eu que não me reconheço nos espelhos que se transformam em vidros cortados manchados de sangue, o branco dos lençóis já encardido, a fúria e as angústias, o desespero, a raiva e o passado, o rosto encovado, a pele baça, os ossos que perfuram a pele fina e o sol que transforma em sombras cada esquina onde pousa e as vozes que gritam, que ordenam, que matam cá dentro, as vozes que me roubaram de mim, que me deixaram sem fundo, que me enterraram num deserto árido e estéril, as vozes que morrem dentro do meu peito, as vozes que me matam todos os dias até que me matem mais uma vez.

| Fotografia de João Corvo |

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