One Red Crow #9

julho 24, 2018



Às vezes eu queria ser o sal na tua pele, o rasto dourado do final da tarde, a areia colada pelo corpo todo. Às vezes queria ser o sorriso vírgula no canto da boca, o cabelo desalinhado que teimas em enrolar nos dedos quando a ansiedade se apodera de ti, a sobrancelha levantada perante a dúvida e a indecisão. Às vezes queria ser a noite mais escura, lua nova e nenhuma luz, todas as ruas da cidade em silêncio e em absolvição, o barulho dos carros como um eco longínquo, aquele som de fundo com que sonhas mas que sabes não ser real. Às vezes queria ser a promessa que nunca cumpres, o caminho que deixaste de fazer, os autocarros perdidos para os quais não correste, as portas todas que deixaste fechar Às vezes queria ser a última refeição no corredor da morte, a oração que guardas para quando já não sobrar nada, o altar onde ajoelhas mesmo sem acreditar. Às vezes queria ser as três letras órfãs da palavra fim, o ecrã preto no final do filme, a terra que se atira sobre o caixão. O silêncio que vem com a morte é o nome que carrego com mais orgulho.

| Fotografia de João Corvo |

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