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25 julho 2018

Um pequeno exercício sobre amor próprio

Adorava não ter dois metros e meio de testa. Preferia não ter o nariz gigante e saliente e feio que tenho. Gostava de não ter os dedos das mãos tortos. Dispensava a celulite. E A meia dúzia de estrias também podia desaparecer. Gostava que o meu rabo não fosse o depósito de toda a gordura que se instala no meu corpo. E preferia que a barriga também não fosse testemunha das merdas que como (e que bebo). Mandava embora as poucas rugas que tenho nos cantos dos olhos e vivia bem sem os pouquíssimos cabelos brancos que tenho. Ah, e se mandasse alguma coisa, tinha encomendado umas mamas que não sofressem efeitos da gravidade e que fossem uma copa C ou coisa que o valha.

Tenho um cabelo que adoro, liso, enorme, saudável. Não preciso de alisamentos nem de grande manutenção. Corto-o duas ou três vezes por ano, pinto-o quando me apetece e siga. Tenho uns olhos rasgados, de uma cor algures entre o avelã e o esverdeado, meio orientais. Tenho os lábios carnudos e não me aproveito muito disso porque não sou a maior fã de batons do mundo. Adoro as minhas pernas - nunca ninguém me ouviu queixar delas. Apesar da celulite, gosto do meu rabo como está agora. Adoro os meus ombros, os braços e o pescoço. E as minhas costas. Ah, e gosto de ter mãos grandes e esguias. E também gosto dos meus pés.

Posso focar-me no primeiro bloco de texto e lamentar aquilo de que não gosto em mim. Ou posso focar-me no segundo e sentir-me bem comigo, valorizar o que gosto mais e dar destaque a isso. De caminho, posso resolver algumas das questões do primeiro bloco, mas se me focar apenas nisso nunca vou estar satisfeita com o que sou. E, reparem, aquilo que é possível resolver envolve treinos e alimentação e eu faço isso tudo. Mas faço porque gosto, porque me sinto bem. Não faço porque ando numa caça desenfreada pela perfeição - que, a propósito, não existe.

Se calhar é maturidade. Amor próprio é de certeza. Não posso ser a minha pior inimiga. Gosto de mim. Cada vez gosto mais de mim - e isto não é narcisismo, é apenas auto-estima. Tenho pontos a melhorar? Seguramente. Mas por mim, não pelos outros. E, mesmo que não melhore, gosto muito do que vejo agora. Esta sou eu. E sim, tenho milhares de inseguranças. E sim, nem todos os dias tenho esta clareza de pensamento, se quiserem. Há dias em que só  vejo o primeiro bloco. Depois olho com mais atenção e... no final, gosto sempre de mim.

Experimentem fazer isto: olhem para vocês e foquem-se naquilo que amam. Deixem de lado o que gostam menos, que agora não interessa. A ideia é valorizar o que têm de bonito e perceberem que sim, vale a pena gostarmos de nós. Depois contem-me, sim?

1 comentário:

  1. Ora aí está uma coisa que tenho de fazer com urgência. Foco-me principalmente no meu primeiro bloco e ultimamente no meu lado negro da alma....

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