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06 agosto 2018

Breve tratado sobre as (minhas) paixões

Não sou mulher de coisas mornas. Sou 8 ou sou 80. Sou branco ou sou preto. Sou fogo ou sou gelo. Não sou temperada, meio termo, assim assim, tanto faz. Sou tudo ou nada. Estou inteira ou desapareço.

Sou assim com as paixões. Não me apaixono muitas vezes nem por muitas coisas. Às vezes entusiasmo-me mas rapidamente encontro um ponto de fuga, que é aquela coisinha mínima e sem importância que me faz travar a fundo e voltar para a minha bolha. No fundo, procuro sempre o meu conforto e as paixões são, por norma, desconfortáveis. Nem sempre cedo, nem sempre me apetece nadar para fora de pé e são mais as vezes em que me transformo numa sombra que ainda agora aqui estava e dois segundos depois já não está.

Quando me apaixono, e agora não falo de pessoas, mas sim de coisas, situações, o que for, é um problema. Porque sou intensa. E mergulho. Não molho os pés - mergulho mesmo.

Quase ninguém à minha volta entende esta minha forma de viver as paixões. Acham que me perco, que exagero, que bloqueio naquilo que me apaixona. Eu acho só que vivo. Que me entrego. Que absorvo tudo. Que me alimento destas paixões como se o mundo acabasse já a seguir. Formas de estar. Esta é a minha.

É por isso que danço todos os dias. É por isso que não me canso. É por isso que rasgo um sorriso quando o assunto é este. Apaixonei-me. Deixei-me ir. Entreguei-me. Não procurei aquele pequeno nada que podia ter-me feito desligar. Para mim, a kizomba não é um hobbie, um escape, uma coisa que ando a fazer como podia fazer outra qualquer. Para mim, é uma porta aberta. Uma paixão que cresce. Um mundo onde me sinto em casa. Um sítio onde sou eu, sem ter de ser eu pela metade, só um lado meu, aquela parte que se pode mostrar ao mundo. É por isso que vivo assim as minhas paixões: porque, se me permitem ser eu sem máscaras, então é para ir. E vou. Até ao fim.

A minha Lia revira os olhos, diz-me que só vejo isto à frente. E eu tenho pena de não lhe correr no sangue o mesmo ímpeto, a mesma torrente, a mesma voragem desmesurada. Porque isto é visceral, é gigante, é tão forte... e faz-me sentir tão viva que tenho a certeza de que todas as portas que se fecharam ao meu redor foram forma de abrir esta. E talvez esta se feche um dia para que outra se abra. Se acontecer, é porque a paixão esmoreceu e houve outra que se incendiou. E está tudo bem. Desde que o sangue fervilhe, desde que os sorrisos sejam rasgados, está sempre tudo bem.

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