-->

Páginas

19 setembro 2018

One Red Crow #13


Foste, em tempos, a casa acolhedora e bem decorada, sem grandes artefactos, um espaço confortável e sereno, onde dormia tranquila pelo sofá, onde me deitava em silêncio por cima dos lençóis ou com as mantas a tapar-me a cara, se o dia era de frio e as angústias maiores do que eu.
Hoje restam apenas as paredes e as memórias, marcas das mobílias que ali fomos pondo, bocados de tinta em falta por pancadas mais ou menos desajeitadas. Hoje és os roupeiros onde outrora havia tanto e agora apenas o eco que torna gélido todo o espaço. E os meus pés que já não conhecem a tábua que range se a pisar do meio para cá, as manchas no soalho, o frio dos mosaicos, o frio do esquecimento, eu e tu encaixotados algures, aquelas caixas que não terão lugar na casa nova, tu a casa velha e gasta, e do nosso amor apenas um cobertor dobrado no chão.

| Fotografia de João Corvo |

Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigada!