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22 outubro 2018

Heranças

1991

Andava no 5º ano. Na RTP, uma novela portuguesa tomava conta da ocorrência. Chamava-se Cinzas, tinha a Sofia Sá da Bandeira e o Ricardo Carriço como cabeças de cartaz. Inspirada por aquilo, escrevi o meu primeiro conto. Cada semana escrevia um capítulo, que levava para a escola, para as minhas três amigas mais próximas lerem. Elas gostavam daquilo e isto ainda durou um tempinho. Foi o meu início na escrita.

2018

A minha filha, que anda no 6º ano, teve um trabalho para fazer este fim-de-semana. Vai haver um concurso literário na escola dela, no âmbito do Halloween, e ela quis participar. Tinha de escrever um conto aterrador. Uma página A4, disse-me ela. Ontem sentou-se ao computador a escrever. E escreveu, escreveu, escreveu. Aquilo deu cinco páginas. Pediu-me que lho corrigisse. 

Sentei-me a ler aquilo e tive um baque. Nota prévia: eu sou ZERO a mãe que bate palminhas tipo foca a tudo o que os filhos fazem. Seria a última pessoa do mundo a incentivar um talento que eles não tivessem. Não dou para esse peditório, porque acho que lhes evita dissabores (imaginem: se eles cantassem pessimamente - o que até não é, de todo, o caso -, eu seria incapaz de os incentivar a sujeitarem-se a castings manhosos de onde sei que nunca iria sair coisa boa). Bom, estava eu a dizer que me sentei a ler aquilo e... gralhas à parte (e desconhecimento sobre uso de travessões e tal), o texto está muito, muito bom. Muito melhor do que o meu primeiro conto. Mas assim de longe.

A minha filha é, de facto, muito filha de sua mãe... e nem dois minutos depois estava de lágrima no canto do olho a dizer que aquilo não prestava, que não gostava, que não ia ganhar nada. Deixei-a lá na espiral dela. Corrigi o que havia a corrigir. Chamei-a ao pé de mim. Mandei-a guardar as folhas na mala. E disse-lhe, a olhar nos olhos dela, que aquilo era muito bom. É mesmo. Disse-lhe que não pode duvidar dela. Disse-lhe para não ser como eu, que só aos 40 anos me deixei de medos e demorei este tempo todo a ir atrás do meu sonho. Disse-lhe que às vezes vai ganhar e às vezes vai perder. Mas que o talento dela está lá (e está mesmo). Só tem de continuar a ler muito, a escrever muito. E, se for isto que ela quer, tem de tentar. Sempre.

Acabámos as duas a chorar. Eu porque vejo nela as mesma inseguranças que eu tenho. E sei onde isto vai dar. E quero mesmo guiá-la para fora o pântano. Ela porque sentiu o medo a tomar conta dela. 

Este fim-de-semana, entre este momento e mais um ou dois, houve um laço entre nós que se apertou. E o orgulho que tenho nesta miúda é uma coisa que cresce e cresce... Olho para ela e vejo tudo o que herdou de mim. E espero sinceramente conseguir ajudá-la a não cair nas mesmas armadilhas em que eu caí. E espero conseguir ajudá-la a construir uma confiança que eu demorei quatro décadas a ter. 

2 comentários:

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