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23 outubro 2018

Lidar com a morte

Quando a Suri morreu, na sexta-feira passada, não contámos logo aos miúdos. O pai quis esperar pela entrega do diploma da miúda e pela primeira aula de catequese do miúdo. Eu achei que ele não devia contar ao telefone. Combinámos que lhes diríamos juntos. Na sexta já não deu, então ele foi lá a casa no sábado, para lhes contarmos. 

Eu deixei para ele a tarefa de explicar o que se passou, porque ele é que viveu tudo de perto. Ele andou ali com uns rodeios, sem saber bem como lhes dizer. Até que explicou que ela tinha sido levada para o hospital, onde tinha "adormecido" no colo da amiga do pai (e deles, que eles adoram a rapariga) que trabalha no hospital veterinário. 

O miúdo ficou meio sem saber o que é que aquele "adormeceu" queria dizer. O pai foi mais directo e disse "a Suri morreu". E o miúdo... "ah, ok, assim já percebi". Não voltou a falar do assunto.

A miúda começou a engolir as lágrimas. Eu a ver que ela queria chorar, e ela a esforçar-se por não o fazer - tem um bocadinho de tendência para reprimir as emoções. Abracei-a e disse-lhe que podia chorar e que devia chorar, se era isso que estava a sentir. E ela chorou. 

Reconfortámo-la como pudemos: a gatinha estava em sofrimento, não tinha salvação, ia acabar por ter uma série de ataques que a fariam morrer em sofrimento. Ela entendeu (até porque acompanhou a decadência da gata), mas ficou naturalmente triste. E disse que estava assim porque nunca tinha lidado com a morte. Disse-lhe que tinha, sim. O bisavô morreu quando ela tinha três anos e ela lembra-se bem dele; um tio-avô paterno morreu no ano passado e ela também acompanhou o processo. "Mas eles não viviam comigo" foi o argumento que ela usou. E eu percebi: apesar de ser uma gata, era uma presença que foi diária na vida dela durante dois anos e tal e que, no último ano, passou a ser a companhia de casa do pai.

O que lhe quis passar foi que é normal ter saudades. E é saudável chorar e deixar a tristeza vir. A morte é uma coisa natural, com que teremos de lidar em algum ponto da nossa vida e não os quero desprovidos de ferramentas para isso. Por enquanto, parece-me que estão tranquilos. Ela já voltou a falar na Suri, mas sem fazer dramas: era a gatinha dela, deixou saudades mas... foi bom termos vivido aqueles anos com ela e são essas as memórias que perduram.

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