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30 outubro 2018

Mafalda

Quando eu era pequena, seis, sete anos, tinha amigas que andavam no ballet. Nunca andei. Nunca puxei para ali e sabia que não podia ser mas, no fundo, gostava de ter podido andar. Ficou a ideia de que é uma coisa para começar de pequenino, para se poder evoluir e avançar (achava o mesmo do karaté e foi o que se viu, mas adiante). Gostava daquela áurea de leveza e de delicadeza, da precisão, da postura. Achava as bailarinas o expoente máximo da elegância.

Fast forward 35 anos.

Há uns dias, vi no Facebook o anúncio das aulas de ballet infantil que a Mafalda, a minha professora de Urban Kiz, vai dar lá na escola. Olhei e pensei: a Mafalda é a professora que todas as meninas mereciam ter, para começarem a dançar. Porque é doce e leve, porque ensina bem, porque transmite confiança e porque ama o que faz e isso nota-se na maneira como está ali (já vi a Mafalda entrar numa aula de Urban destroçada e sair de sorriso aberto, sabem?). Pensei que a Mafalda era a professora que eu gostava de ter tido, em menina. Pensei que a Mafalda é a sorte grande das meninas (e dos meninos, claro) que a apanharem pelo caminho.

Hoje cheguei uns minutos mais cedo à aula e a Mafalda estava a terminar a aula de ballet. Tinha apenas uma menina com ela. Encostei-me num cantinho e fiquei a ver. E chorei. Chorei mesmo, só de ver a Mafalda a ensinar aquela menina, só de ver a maneira como ela falava, como dava indicações, o cuidado, a doçura e o carinho que é o que faz a Mafalda ser a Mafalda e que estava ali, naqueles minutos em que a vi com aquela menina pequenina.

No final, a Mafalda veio abraçar-me como faz sempre que nos encontramos. Viu-me de olhos molhados e engelhou a testa, como que a perguntar o que se passava. Abracei-a com força e disse-lhe "já me puseste a chorar, só de te ver aqui, a dar esta aula...". E disse-lhe que ela é tão, tão grande. Acabámos as duas a chorar, feitas tontas, naquele abraço cheio do carinho que temos uma pela outra. 

É bom ter a Mafalda na minha vida. É mesmo muito bom. Eu digo sempre que a dança, mais do que a dança, são as pessoas. A Mafalda é seguramente uma das melhores pessoas que encontrei neste caminho. E tenho mesmo a certeza de que a Mafalda, baixinha, doce, meiguinha e sempre tão atenciosa e dedicada, vai mudar a vida de muitas meninas (de cinco ou de quarenta anos, não importa) que tenham a sorte de se cruzarem com ela pelo caminho.

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