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10 outubro 2018

Não é NÃO

Eu juro que não percebo qual é a dificuldade de entendimento aqui, mas quando alguém diz NÃO, quer dizer, vá... NÃO. Ando há 10 anos a bater nesta tecla com os meus filhos e eles já vão entendendo a coisa. Portanto não percebo como é que homens feitos ainda não chegaram lá.

Deixem-me contar uma história absolutamente verídica, só para ilustrar a importância do respeito pelo não...

Há uns meses, uma rapariga foi abordada no Facebook por um rapaz amigo de amigos dela. De muitos amigos dela. Normal, nada de mais. Foram falando, descontraidamente, sem agendas nem intenções (da parte dela; da dele não sei). Moravam perto, combinaram encontrar-se por ali, só para se apresentarem como deve ser e conversarem um bocadinho. Ele convidou-a para café em casa dele. Ela recusou. Não quis enfiar-se em casa de um desconhecido, naturalmente, embora houvesse a tal lista extensa de amigos em comum. Ela estava a regressar de férias, parou à porta de casa dele, ele desceu e ficaram no carro dela a conversar. Tudo tranquilo. Às tantas ele sugere que puxem o carro mais para trás, porque estavam mesmo em cima da zona onde os carros do lixo teriam de parar e não tardaria muito a que isso acontecesse. Ela leva o carro para a rua de cima, e não há grande mal nisso, era uma rua com prédios, imensos carros estacionados por ali. Nisto ele beija-a. Ela manda parar. Diz que não quer nada daquilo, estão ali a conversar, não é para avançar para lado nenhum. Ele não desarma. E continua. E avança. Às tantas tem as mãos por dentro dos calções dela. Ela a mandar parar. A dizer que não quer nada daquilo. Ele a ignorar. Está por cima dela. Ela bloqueia. Não reage. Continua a dizer que não quer. A pedir para ele parar. Ele não pára. Entra nela. Ela continua a não querer. Pede que pare, que saia, que a largue. Ele continua. E continua. Até que se cansa. Diz que ali não consegue acabar. Sugere que vão para casa dele. Ela arranja a roupa, endireita-se, liga o carro, regressa à porta dele e manda-o sair. Diz que não vai a casa dele. Já disse que não vezes que cheguem. Ele acata. Ela sai dali. Vai para casa. Sem reacção. Devia ter ido direita ao hospital e à polícia. Não conseguiu. Ficou mesmo sem reacção. Como se o cérebro dela tivesse bloqueado aquilo tudo, para a defender do choque, acho.
No dia seguinte, ele fala com ela. Pergunta-lhe se está bem, se gostou de o conhecer. Ela diz que não a ambas as coisas. Diz-lhe que precisa de processar o que se passou. Ele diz que o que se passou foi o que ambos quiseram que se passasse. Ela diz que não, que lhe disse imensas vezes que não queria, que o mandou parar imensa vezes. Pergunta-lhe por que é que ele não respeitou isso. Ele diz que achou que ela não estava a falar a sério, que achou que ela queria o mesmo que ele. Ela diz que não queria e que foi por isso que disse que não. Diz-lhe que não funciona assim e que tem de fazer as pazes consigo mesma, para poder, de alguma forma arrumar o que aconteceu e seguir em frente. Nos dois ou três dias seguintes ele vai falando com ela, dizendo olá. Ela mal responde. E deixa de responder de todo.
Consegue finalmente dar nome àquilo e entender o que se passou. Arrepende-se de não ter feito queixa, mas já não há nada a fazer, as provas físicas já desapareceram. Bloqueia todos os contactos dele. Quer esquecer. A vida segue. Um dia, tempos depois, cruza-se com ele de carro, ele não a vê. Ela não reage. Não entra em pânico, nada. Talvez o facto de, na hora H, o cérebro dela te bloqueado o que se estava a passar lhe tenha salvado a vida.

Moral da história: não é NÃO. 

1 comentário:

  1. São só 3 palavras, sendo que duas são exactamente iguais. Qual é a dificuldade ?

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