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09 outubro 2018

One Red Crow #14


Três da tarde e assomava à janela, no parapeito uma almofada feita de chita, uma das primeiras coisas que fez quando aprendeu a costurar, os cotovelos apoiados, olhos pregados no horizonte, na telefonia pousada na camilha uma música meio roufenha, Não vás ao mar, Tonho, e no horizonte os navios que iam atracando, o barulho de ferro a raspar em ferro, as buzinas graves dos cargueiros, e no horizonte a noite que caía sempre, todos os dias, Não vás ao mar, Tonho, a luz do farol a varrer a escuridão e na rua o som de passos mais ou menos incertos, demasiado vinho, demasiado cansaço, Não vás ao mar, Tonho, os braços gelados e dormentes, a almofada arrefecida pelo orvalho, a telefonia já desligada, o jantar que ficou por fazer, Não vás ao mar, Tonho, a almofada pousada ao lado da telefonia, a janela fechada com estrépito, as mãos a esfregarem os braços, talvez faça um chá de camomila para ver se o sono vem, Não vás ao mar, Tonho, as heras que abraçaram ao longo dos anos as paredes, que as seguraram, a pintura das portadas descascada, o vidro que entretanto se partiu, tantas noites e o mar nunca te devolveu.

| Fotografia de João Corvo |

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