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16 outubro 2018

One Red Crow #15



Voavas. Levantavas voo e voavas e o meu coração morria um bocadinho cada vez que te via, lá em cima, tão acima, a queda iminente, o medo da dor, da perda, da incerteza. Ouvia o chiar do ferro com ferrugem e as tuas gargalhadas, um eco profundo que guardo até hoje. Mais força, mamã, mais força, e eu tocava-te nas costas para que sentisses o impulso (que não te dava, porque o medo era maior do que a alegria por ver-te feliz) e tu continuavas a subir. Voavas. E agora é a sombra marcada no chão, o baloiço vazio, o voo inexistente. Agora és tu profundo na terra, o futuro que acabou ali, mais nenhum voo, mais nenhum riso, o fim negro de toda a felicidade. Ali, no baloiço velho e gasto, voavas todas as tardes como se não houvesse limite para ti. Eras tu a voar e isso provava todas as possibilidades. Se podias voar, podias tudo. Só não podias morrer.

| Fotografia de João Corvo |

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