One Red Crow #16

outubro 23, 2018

A plateia silenciosa que guarda todas as possibilidades. As vidas diferentes que hão-de sentar-se ali, duas horas de outro mundo, os problemas deixados lá fora, no tapete, no bengaleiro, na mala do carro. As mãos que se tocam timidamente, amantes escondidos na escuridão de uma sala lotada; as mãos que se tocam por hábito, vinte anos de um casamento mais ou menos, sim, talvez o hábito e o comodismo, a inércia e o medo; as mãos que se tocam sem que os olhares se cruzem, entrámos amigos, talvez saiamos namorados; as mãos que se tocam por acaso, perdão, estou a ocupar o seu espaço, não faz mal, cabemos todos.
A sala escura, uma luz difusa ao fundo do palco, aquecimentos vocais nos camarins, a maquilhagem que ameaça começar já a derreter, o café que podia ser triplo, mal dormi na noite passada, é sempre assim na véspera das estreias, o texto que se corre uma última vez, as marcações, não te esqueças de que não podes passar da mesa senão o foco não te apanha e fica uma sombra estranha, os figurinos pesados e quentes, século XVI e a as perucas, comichões que não posso coçar sob pena de ficar marcada e já não ir a tempo de retocar a maquilhagem.
Três pancadas e a primeira entrada. A plateia vazia e eu não encontro o meu lugar.

| Fotografia de João Corvo |

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