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30 outubro 2018

One Red Crow #17

Pelas ruas da cidade moram vidas dentro de malas, o passado arrumado num espaço ínfimo, todas as mágoas aos pés da cama, que agora é apenas uma caixa de cartão semi desfeita pela chuva — já foi um dossel de mogno, toda a opulência dos abastados naquela estrutura pesada, presente esforçado dos pais pelo casamento. Pelas ruas da cidade moram restos de vidas dignas perdidas entre créditos para cobrir dívidas, para os quais foi depois preciso outros créditos, numa espécie de espiral interminável. Pelas ruas da cidade moram sonhos por cumprir, a derradeira frustração de se querer e não se ser capaz, o medo do incerto, o desalento engolido em cada não que se ouve, em cada passo que não se dá. Pelas ruas da cidade moram guerras silenciosas, o veneno da mágoa a comer-nos por dentro, o tempo que passa impiedoso e todas as desculpas que nunca chegarão a ser pedidas, todos os pecados que não serão perdoados. Pelas ruas da cidade moram fotografias amarelecidas e recordações que nos levam a outros sítios, a outras vidas que vivemos antes destas, adormecidas em caixas de cartão semi desfeitas pela chuva. Pelas ruas da cidade moram os indigentes, os abandonados, os orgulhosos, os vazios, os ausentes, os audazes, os inadaptados, os solitários, os que, já mortos por dentro, continuam vivos nas pedras gastas de que são feitas as ruas da cidade.

| Fotografia de João Corvo |

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