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29 outubro 2018

Uma história sobre compulsão alimentar

Não sei se alguma vez contei isto aqui: este é o meu distúrbio alimentar. Durante muito tempo vivi assim, entre a compulsão e a compensação que se faz a seguir. Mitigava os episódios de compulsão com dias de restrição e a coisa andava. Até que, algures no tempo e sem pensar muito nisso, as compulsões pararam. Acho que foi quando deixei de me culpar pelo que comia e passei a olhar para a comida como alimentação e não como compensação para outras faltas. Anos sem ter um episódio de compulsão. Até sexta-feira passada.

Não sei o que desencadeou tudo. Sei que comprei uma embalagem de mini-chocolates no Lidl e virei mais de metade, em menos de nada. Depois começou a tal reunião no meu trabalho e foram gomas e batatas fritas e pipocas e bolachas e pizza e mais gomas e ainda mais gomas. Descontrolo total. Uma má disposição imensa. E muita vontade de continuar a comer. Sem parar. 

Parei quando saí do escritório. Mal disposta, obviamente. A coisa acalmou a caminho de casa. Estava sem fome e meio nauseada, mas foi passando. 

E na minha cabeça a pergunta recorrente: porquê? O que é que me levou ali? De onde veio aquilo agora? O que é que me está a faltar, que tive de compensar com aquela estupidez de comida. A resposta é simples: não sei. Não sei mesmo. 

No sábado estive normal, não comi nada por aí além. Almocei empadão de atum, jantei uma massa com cogumelos e frutos do mar. Nada de dramático mesmo. Ontem a mesma coisa: almocei o que sobrou da massa do jantar, jantei sopa. Não senti necessidade de compensar coisa nenhuma, foi como se nada tivesse acontecido (excepto ter passado o fim-de-semana inchadíssima...).

Hoje de manhã pesei-me e... nem um grama a mais. Nada. Tudo normal.

E agora que parei para pensar, acho que percebi o que anda a moer-me o juízo: ter parado de treinar. Não quero assumir que parei, mas o que é facto é que, nas últimas duas semanas, treinei apenas um dia. Um dia. Significa zero. E eu preciso de treinar, preciso disso para me sentir bem. Já sei onde e quando tenho de fazer ajustes. E vou fazer. (Depois conto.)

Isto tudo para dizer que o facto de um distúrbio ficar adormecido durante uns tempos não significa que esteja curado. Na verdade, acho que nunca vai estar. Podemos controlar, podemos ir gerindo, mas temos de saber que um episódio destes pode acontecer a qualquer altura e há que saber lidar com isto. Eu respirei fundo e não me atirei para dentro do poço. Podia tê-lo feito com a maior das facilidades e a única coisa que me safou de o fazer foi ter o discernimento de perceber o que me estava a acontecer. Deixei que acontecesse, sabendo que teria de parar a qualquer altura. Foi o que fiz. Mas a culpa ficou cá. O sentir que sou uma fraude, que não tenho nada sob controlo, que posso resvalar a qualquer altura, tudo isso ficou cá.

E agora? Agora é um dia de cada vez, tentando fazer as melhores escolhas e sabendo que, se voltar a ter um pé na compulsão, tenho de me chegar para trás imediatamente. E o mais certo é não conseguir travar...

5 comentários:

  1. Eu acredito que tudo o que nos acontece, seja em que plan9 for, tem uma causa emocional. Ve se também se aplica a este caso...

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  2. Provavelmente tem, sim. Nos últimos tempos tenho estado muito mais tranquila do que há um ano, por exemplo. Mas há situações, mesmo pequeninas, que são capazes de nos desequilibrar.

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  3. Será a falta da proteína da carne ? Como esta a ser acompanhada por nutricionista convém fazer sempre exames para saber se todos o snutrientes estão lá. Eu quase não como carne, mas alguma tenho mesmo de comer porque excluir complemente não resultou comigo.

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    1. Não creio. Eu tinha crises de compulsão quando comia carne, portanto não me parece. Além disso, tenho estado com bastante energia, não tonturas nem cansaço nem nada que pudesse associar a falta de ferro, por exemplo...

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  4. Tenho uma dúvida: o que raio são frutos do mar?!?

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Obrigada!