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20 novembro 2018

One Red Crow #18


Prefiro pensar sobre isto agora, quando ainda me resta alguma sanidade — o diagnóstico foi claro, a crueldade do esquecimento há-de abater-se sobre mim e eu preciso de escapar a esta sentença. Sei que um dia não me recordarei de nada, as pessoas serão sombras, as vozes serão ecos, tudo terá em mim o sabor ácido da ilusão. Mas não posso. Vivi demasiado, fui demasiado. Houve mulheres e filhos, alguns que sei serem meus, pese embora chamem pai a outros homens, outros que tenho a certeza de que não fiz, embora me chamem pai a mim. Não importa. São os filhos daquelas mulheres e pouco importa a sua proveniência. Houve trabalhos menores até me tornar escritor. Esta é a ironia: o escritor esquecerá em breve todas as histórias, reais e ficcionadas, a memória não valerá nada. Guardo estas lembranças em papel pardo, façam delas o que quiserem quando eu já não souber sequer do que é que falam quando me perguntarem se aquele caderno é o livro que estava a escrever. Ou talvez isto não seja uma memória: talvez seja o ponto de partida para o meu próximo romance, uma história dolorosa sobre a memória como alicerce do ser. Tiro a folha da máquina de escrever — precisa de fita preta, há letras que já mal se vêm — , junto-a às outras folhas — milhares — , fecho com cuidado o móvel. Estas gavetas guardam todas as histórias a que nunca tive coragem de dar vida. Não foi o medo de falhar. Foi o medo de um dia perder a voz, perder as histórias, perder-me a mim, que só existo porque escrevo e que sem palavras não sou mais do que um homem morto.

| Fotografia de João Corvo |

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