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27 novembro 2018

One Red Crow #19


Um nó lasso. A corda presa, pendurada sem ter por onde se desfazer a armadilha. O frio das paredes nuas, o cheiro a humidade e a passados por resolver. Em tempos isto foi um matadouro, dizem-me enquanto assino os papéis do aluguer. Não quero saber. Ironia quase poética esta de ter alugado um matadouro. Sorrio de viés. O pé direito muito alto, as sombras que nascem de quatro clarabóias cheias de verdete. O chão de cimento frio, sujo, manchas que percebo agora serem de sangue. As traves que atravessam o espaço de uma ponta à outra, as outras traves que sustentam essa e desenham no chão uma quadrícula perfeita, cortesia da luz que entra pelas janelas muito altas. A corda presa. O nó lasso. Há-de ser assim, quando ganhar coragem. Às vezes, a morte é apenas cobardia. Outras vezes, é a epítome da salvação. A corda grossa, o nó lasso que há-de apertar-se no esticão que acontecerá quando mais nenhuma noite me servir. A corda com que me mato é exactamente a mesma corda que poderia ter usado para te salvar.  

| Fotografia de João Corvo |

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