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21 novembro 2018

Termos de comparação

Ontem, no carro, vínhamos a falar das notas dos testes que a miúda recebeu: teve Muito Bom a Português e Bom a Inglês. E diz ela: sabes, mãe, estou feliz. Perguntei porquê. "Porque ninguém mais teve Muito Bom, tive a melhor nota da turma".

Disse-lhe que estou orgulhosa dela (claro que estou, aquelas são as minhas disciplinas-fetiche, mas evito ao máximo projectar nela os meus gostos e formas de estar, coisa que - quem tem filhos sabe - não é nada fácil!). E disse-lhe outra coisa, ainda mais importante do que o orgulho que tenho nela.

Disse-lhe que ela não pode comparar-se com ninguém. Que tem de estar feliz porque deu o seu melhor e correu bem. Não tem de estar feliz porque foi melhor do que a Maria ou do que o Eufrásio. Expliquei que hoje foi ela a melhor, mas que noutras alturas poderá não ser e, se passar a vida a comparar-se com outras pessoas, vai viver frustrada. Porque vai haver alturas em que há alguém com melhores notas, mais alta, mais magra, mais loira, mais morena, mais isto ou aquilo e ela vai estar sempre a nivelar por baixo.

Expliquei que ela não tem de se comparar com ninguém a não ser consigo mesma. No teste anterior teve Bom, neste melhorou; há duas semanas não conseguia fazer uma pirueta com os patins, agora já faz. Antes não sabia cozinhar, agora já faz panquecas e bolos de caneca. Dei-lhe estes exemplos para ela ver como se tinha superado a ela mesma e para mostrar que essa, sim, é a comparação que importa fazer. E disse-lhe que não tem mal nenhum ela ficar feliz por ter tido uma nota excelente, desde que isso depois não a faça ficar triste quando não for a melhor da turma. Porque se ela der o seu melhor, então já fez tudo o que podia fazer. E está tudo bem assim.

É difícil não perpetuar uma coisa que eu própria faço inconscientemente - mas cada vez menos, e cada vez com mais noção do que está a acontecer. Acho mesmo que temos de parar com esta competição desenfreada que só nos magoa a nós mesmas. Seremos sempre as melhores numas coisas e as piores noutras e não ha problema nenhum nisso. A comparação aprisiona-nos, condiciona-nos e não nos serve de cenoura mas sim de chibata. Eu não quero isto para mim, não quero viver a olhar para cima nem para o lado nem para baixo. Quero viver a olhar em frente - isto é um bocado Gustavo Santos, mas é a realidade: quero olhar em frente, para o meu caminho, para os cumes das minhas montanhas. É só isso que me importa, é só isso que interfere na minha vida. Tudo o resto é paisagem, decoração, ruído de fundo. Não me incomoda, mas não me acrescenta nada. E eu escolho fazer o meu caminho sem a vista turva por coisas que não interessam e que, no fim, são apenas como uma nuvem de poeira que se atravessa para chegar ao lado de lá.

1 comentário:

Obrigada!