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21 novembro 2018

Trovões

"esta noite, uns segundos antes, acordei. ouvi o mais tremendo trovão de toda a minha vida. acordei exactamente no instante perfeito para o ouvir quebrando o planeta em dois. a fúria da tempestade era a voz do fim do mundo. fiquei à espia. da minha casa vê-se a paisagem. as coisas todas sentiram medo."

Hoje de manhã esbarrei com este pequeno post no Facebook. Li. Deixei que as palavras ribombassem cá dentro. Li de novo. E não pude seguir em frente sem fazer uma vénia à mestria. Transformar um trovão num pedaço de texto que há-de ficar a ressoar durante muito tempo está muito longe da banalidade. E é esta a marca dos escritores prodigiosos, é este o dom: a capacidade de transformar pequenos momentos corriqueiros numa coisa que nos toca cá dentro não é para toda a gente, nem é fácil de conseguir. A arte de debulhar em camadas um evento do dia-a-dia, dando-lhe um significado que vai muito para além do plano raso desse acontecimento é coisa ao alcance de poucos. 

E este é, para mim, o derradeiro objectivo. Se pudesse escolher, escolheria ser escritora desta safra, das que consegue fazer ver para além do imediato, das que consegue deixar na carne a marca do que se viu com um olhar novo. 

[O texto é do Valter Hugo Mãe.]

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