-->

Páginas

05 dezembro 2018

A pior mãe do mundo

Ganhei este prémio ontem, quando disse à minha filha que não, não pode ir duas semanas para a Universidade de Winchester aprender Inglês.

A vida nem sempre é justa e à minha filha calhou-lhe uma mãe que está muito longe de ser rica. Calhou-lhe também uma mãe com noção da realidade, o que às vezes é uma chatice. 

Contexto: a escola da criatura está a organizar uma espécie de campo de férias que consiste nas tais duas semanas em Inglaterra, a viver nem sei bem onde (confesso que desliguei o botão e não fixei esta parte) e com aulas de Inglês na Universidade. Até aqui, tudo tranquilo. A escola achou boa ideia dizer isto aos miúdos (no caso, miúdos de 10/11 anos, portanto com imensa maturidade para entender a coisa... not). Depois disse-lhes que ia haver uma reunião de professores e encarregados de educação onde tudo seria explicado. 

O meu pequeno Gremlin andou a comer os miolos ao avô para ele ir à reunião e ele, que até é o melhor avô do mundo, lá foi. 

Ontem ao final da tarde recebo mensagem da criatura a dizer que a viagem custava só €2.333,00. Achei que ela se tinha enganado nos números e que aquilo não podia ser. Tirei a dúvida. Eram mesmo €2.333,00. Sacudi a cabeça e tentei encaixar este valor no meu conceito do que é aceitável. Não coube. Disse-lhe isso de maneira muito directa: nunca na vida, esquece. Pequeno Gremlin começou então a gerir a revolta interior...

Quando cheguei aos meus pais, vi o papel da reunião. O programa daquilo, as condições e os valores. Aparentemente enganaram-se em qualquer coisa (tipo no nome da Universidade ou assim) e hoje iam dar a versão corrigida aos miúdos. Ainda assim, aquilo tinha a espectacular possibilidade de dividir o pagamento em prestações de trezentos e tal euros. Uau. 

Continuei a dizer que não vai dar, ela continuou a insistir. Tive de explicar que não tenho €2.333,00 euros para dar por um campo de férias de duas semanas, nem que divida isso em 30 prestações. Se tivesse esse dinheiro para empatar numa viagem, já estávamos os três a caminho das Caraíbas, para uma semana de resort tudo incluído.

Hoje de manhã liga-me a dizer que recebeu o tal papel, que afinal não são €2.333,00 mas sim €1.900,00. Voltei a dizer que não dá e sua alteza toca de desligar o telefone na cara. Liguei de novo e vai de ralhete. E ela toca de me desligar o telefone na cara novamente (adivinhem quem vai ficar sem telefone nos próximos dias...).

Agora a desconstrução isto tudo: nada contra campos de férias em universidades inglesas, para aprender a falar inglês. Acho é que os miúdos da idade da minha não beneficiam grande coisa com eles, mas nem vou por aí. A minha questão é apresentarem esta possibilidade aos putos que, como ainda vivem um bocado no país das maravilhas e não sabem ainda bem como funciona a vida real, depois têm alguma (muita!) dificuldade em entender e aceitar um não.

Portanto, agora tenho uma filha que acha que, porque não posso bancar a viagem dela, sou a pior mãe do mundo. E se calhar sou mesmo.

6 comentários:

  1. Eu quando andava no 10º ano também tínhamos esses campos de férias (era mais velhinha) e acho que eu nem pedi, mas a minha irmã pediu e foram 2 amiga. Nós não fomos, não havia dinheiro. Quando chegamos ao 12º ano eu não pedi a viagem de finalista, até me podiam dizer que sim mas era um enorme sacrifício. Acho que a minha irmã foi à dela. Se ficamos tristes, ficamos. Se teria sido bom, teria. Mas tudo passa e nunca achamos que teríamos os piores pais. É a vida... A ela também lhe vai passar! e traumas ZERO!

    ResponderEliminar
  2. Passei o mesmo devido á viagem de finalistas da minha filha. Como teve que mudar de escola, era finalista...ok, até aí tudo bem, não fosse ser a Paris e quase 2000,00€ ( Crianças que ainda não tinham feito 14 anos). Eu sou Mãe solteira...imaginas a guerra que foi lá em casa?
    Acho que a escola tem muita culpa nisto, mas pronto... é a minha opinião.

    ResponderEliminar
  3. Estou chocada... Como é que é possível uma escola apresentar uma atividade e um orçamento destes para uma criança de 10/11 anos. Não sei qual é a escola, nem interessa, mas nem que fosse/seja o St.Julian's se justifica uma alarvidade dessas. Garanto que a seguir virão outras mais atividades e orçamentos semelhantes, sem que se pense que existem ou podem existir mais elementos do agregado familiar que deverão beneficiar de algo semelhante e que há quem , simplesmente, não possa pagar algo como isto. Felizmente, tirei a tempo o meu filho da escola privada que pedia cerca de 3000€ para o cruzeiro da viagem de finalistas de 9º Ano! Eu nunca fiz um cruzeiro, sequer! Claro que não me livrei das viagens de finalistas do 4º e do 6º anos, mas esses foram em campos de férias e com valores aceitáveis. Porém, o que é mesmo mais relevante, é que a recusa, por impossibilidade económica e/ou por se considerar descabido, vai criar na mente das crianças e dos adolescentes uma ideia negativa dos pais, os maus da fita. E o sentimento de inferioridade porque uns colegas podem fazê-lo e eles não. Será que ninguém numa escola percebe o absurdo disto? Enquanto mãe, enquanto professora que sou, enquanto cidadã, lamento estas ideias ineptas de certas "mentes brilhantes" que querem fazer bonito nos Departamentos Curriculares e nos Planos Anuais de Atividades para assim obterem o reconhecimento dos bons serviços prestados nos seus relatórios de avaliação. Um beijinho de mais uma mãe da "Equipa da piores mães do mundo (e arredores!)", Helena

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Estamos a falar de uma escola pública, nos subúrbios de Lisboa, numa zona que não é considerada de gente rica. Acho isto tudo completamente desfasado da realidade, não só desta zona, como no geral. E não acredito MESMO que haja miúdos da turma dela a irem à viagem. Até pode acontecer mas... duvido muito...

      Eliminar
  4. Olá Lénia,
    Li o teu post e lembrei-me da minha experiência e achei que devia comentar. Eu e a minha irmã fomos numa viagem dessas a Inglaterra com alguns colegas de turma do British Council e foi espetacular, mas já tínhamos 15 anos e aproveitámos imenso. Acho que é uma experiência muito intressante, mas ninguém morre se não for! No meu caso, sinto que foi o gatilho que estimulou a vontade de viver fora do país ;)
    Relativamente ao que escreves, no meu ponto de vista, parece-me que há aqui 2 problemas: o valor da viagem (já não me lembro quanto foi a nossa, mas acho que não foi assim tão cara...) e as expectativas irrealistas dos miúdos. Já estou como a Jane Doe, como professora também me parece um absurdo um orçamento destes para uma atividade para alunos destas idades, porque para além de ser muito desfasado da conjuntura da maioria das famílias, afeta a noção de realidade dos miúdos. E nem parece que conseguissem usufruir em pleno da viagem, porque com essa idade ainda é difícil para a maioria passarem 15 dias sem os pais num país estrangeiro, ainda que vão com colegas e com professores (uma coisas são férias nos avós, outra é isto!).
    E outra coisa que me salta à vista no teu post é a noção de 'pior mãe do mundo' e isso parece-me que não tem propriamente a ver com esta situação em particular. Acho que somos sempre as piores mães quando lhes goramos as expectativas e os desejos, sejam eles assim megalómanos ou muito mais prosaicos. Não sei se haverá esta atividade noutros anos, e nem sei se a tua filha é deste género, mas às vezes o Não dos pais leva-os a tomarem iniciativa de juntarem dinheiro para bancarem eles pelo menos uma parte da despesa.
    Beijinhos solidários aqui deste lado!

    ResponderEliminar
  5. Acho um valor escandaloso.... e absolutamente normal que se recuse... os meu pais também não tinham dinheiro na minha altura e caso houvesse algo desse genro seria impensavel. (e eu apesar de estar numa escola publica estava na turma dos riquinhos por isso poderia acontecer este tipo de valores) E eu hoje em dia com o salario que tenho (ridiculo) e com as despesas (rendas, alimentação, despesas basicas) seria impensavel. As escolas tem que ter mais calma com isso...

    ResponderEliminar

Obrigada!