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04 dezembro 2018

One Red Crow #20

Há sempre este barulho ensurdecedor, este ruído fininho que me enleia os pensamentos e torna tudo uma massa turva e espessa, pesada e infinita. Não sei onde deixei a estrada, há muito que rasguei os mapas, não me servem porque mesmo que os olhe escolho caminhar sem saber que trilhos me levam ao destino. Há sempre esta faca afiada apontada ao coração, a hipótese de morte, a fuga cada vez mais lenta e eu entre paredes, bola de squash que não abranda, pancadas secas e o eco que se propaga até à exaustão. Há sempre esta névoa cinzenta, esta incógnita incapacitante e ácida e eu ali, entre dúvidas e falsas certezas, entre o querer e o conseguir. Eu sou um puzzle a que faltam peças, sou a pintura inacabada, sou o livro que ficou por escrever, a história deixada a meio porque adormecemos abraçados inebriados pelo álcool dos gins e do passado. Eu sou um reflexo difuso num vidro sujo por histórias antigas, num vidro riscado por mágoas de outras vidas, num vidro rachado por tudo o que antes falhou. Basta que me toques no ponto certo. Ou partes o vidro irremediavelmente ou lhe devolves a absoluta transparência.

| Fotografia de João Corvo |

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