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11 dezembro 2018

One Red Crow #21


O ritual repetido infinitamente, caixas empilhadas na garagem, a ganharem pó até ao ano seguinte e, no primeiro domingo de Dezembro, a árvore falsa retirada da embalagem onde esteve o ano inteiro, as bolas vermelhas, há sempre uma que se parte e deixa pelo chão pedacinhos ínfimos de vidro e purpurinas, as bolas prateadas porque há muito que retirámos do Natal o brilho dourado, opulência de fachada, uma mentira como tantas outras.
Este ano desço à garagem sozinho, trago as caixas, tropeço em fios que arrumei sem cuidado no ano passado, as luzes enleadas e que se foda, não as ponho, os miúdos vão dar pela falta delas, uma árvore sem luzes é um espectáculo morto, porra que tenho de desembaraçar isto dê lá por onde der. Estico a fila de luzes meio fundidas, em tempos isto piscou numa coreografia perfeita, depois houve luzes que se apagaram e já não são luzes plenas, é apenas o que resta da vida que se apagou.
Nos anos anteriores, éramos cinco e não fazíamos isto sem a Mariah Carey aos berros, I don’t ask a lot for Christmas, this is all I’m asking for, todos a dançar desafinados, este ano troquei a Mariah por um copo de whiskey e espero que me anestesie da mesma maneira, a dor de cabeça que um me dá não deve ser muito diferente da do outro.
Este ano, a canção de Natal é a ausência deles, divididos entre nós, que nos dividimos também; as fitas que pus na árvore são fiadas de arame farpado, metáfora feroz dos corações feitos em papa; as bolas são cubos de gelo de arestas afiadas, uma transparência fugaz, um brilho falso e nada que me aqueça uma molécula sequer. Este ano o Natal é um fantasma pesado, a vida ligada à máquina, a recordação dolorosa do calor que arrefeceu.

| Fotografia de João Corvo |

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