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19 dezembro 2018

Um ano peculiar

Entrei em 2018 de coração ferido. 2017 tinha sido um ano muito difícil, 2018 não estava a prometer ser muito melhor. Fechei-me um bocadinho, sentia-me mergulhada em águas turvas, a tentar vir à superfície para respirar.

Janeiro foi introspecção. Foi não saber onde estava a pôr os pés, foi não saber para onde ir. Estava perdida e Janeiro não ajudou.

Em Fevereiro, 39 anos e a certeza de que estava no sítio errado. A nuvem negra perseguia-me e eu ali andei, meio arrastada. Lembro-me de me sentir completamente enrolada num novelo de arame farpado e de querer muito soltar-me, reencontrar-me e voltar a ser quem eu sou. Ainda demorou.

Março foi lodo.

Em Abril, fui pagar a promessa que fiz quando a minha mãe teve o rebentamento do aneurisma cerebral. Cinco dias duríssimos, muitas dúvidas, muitas certezas que não vinham ao caso e um joelho que entregou a alma ao criador. Sobrevivi, trouxe sequelas, não fiquei mais crente, não senti o que a maioria das pessoas que faz este caminho sente. Fiquei de alma lavada por ter feito o que foi possível fazer e estou em paz com o assunto.

Maio trouxe a leveza de que eu precisava. De repente, o meu mundo entrou nos eixos, o que era tóxico ficou para trás e eu voltei a ser eu, tranquila, em paz comigo, de braços abertos e de olhos postos no futuro. Esperança foi a minha palavra de ordem.

Junho foi um mês para sossegar, não sossegando. A rotina da dança instalou-se, a lama desapareceu. Voltei a viver os santos populares como aprendi a gostar de fazer, a data deixou de me pesar e eu percebi que o passado era mesmo só passado. Foi o mês em que comecei a série One Red Crow, em parceria com o meu amigo João Corvo, continuo a adorar cada vez que as fotografias dele me alimentam a veia criativa. É o nosso equilíbrio perfeito entre palavras e imagens.

Em Julho houve as minhas férias com os miúdos (acabei cansada, naturalmente), mas houve também a certeza de que tinha finalmente encontrado a serenidade que precisava de ter para estar bem comigo, antes de conseguir estar bem com o resto do mundo. Julho foi toda a tranquilidade que eu procurava.

Agosto foi uma surpresa boa. Inesperada, sem expectativas, a fluir. Foi um sorriso à beira-rio e a pele arrepiada porque não demos pelo tempo passar. Se tivesse de resumir Agosto numa única palavra, essa palavra seria abraço.

Setembro trouxe-me o Caramelo e... agora que olho para trás, percebo: a vida deu-me os presentes que eu merecia, quando estive pronta para os receber. Em Setembro continuou a haver o doce e a leveza, a certeza de que estou bem no sítio onde estou.

Em Outubro deixei de comer carne, dei a minha primeira aula de kizomba, percebi que o ginásio estava a ser um problema, percebi que me deixei enrolar numa teia de que não gosto (a da auto-estima com lascas, que é coisa que me mói). Tive mais angústias do que sorrisos e a vida começou a mostrar-me que havia ajustes a fazer. Mas também me mostrou que vale a pena investir, que vale a pena o empenho e que é aqui que tenho de estar.

Novembro não foi fácil. Nada mesmo. O cerco (das minhas angústias) a apertar e eu a ter de me safar sem grandes alaridos. Fiz o que tinha de fazer: respirei fundo e levantei a cabeça. Foi em Novembro que mudei um bocadinho da minha casa. Fui pela primeira vez ao Estádio da Luz (e que abada, senhores...) e foi em Novembro que recuperei o rasto à minha turma do secundário. Foi tempo de parar um bocadinho, de deixar a poeira assentar e de tentar ver o que tinha de ser arrumado novamente. Queria ter aproveitado o mês para dar um bom avanço no meu livro e... não escrevi uma palavra sequer. Mas não faz mal nenhum...

Dezembro ainda não acabou mas já consigo (acho eu) fazer o resumo: cancelei o ginásio porque não conseguia ir treinar e uns dias depois anulei o cancelamento porque não consigo estar assim. Há coisas que vão ter de cair para que eu possa voltar como eu gosto, mas não faz mal, porque são coisas que não me acrescentam muito. Sinto mesmo que tudo se está a encaixar nos devidos lugares e que, aos poucos, tudo ficará mais calmo. Mantenho perto de mim as pessoas de quem mais gosto e isto é sempre o mais importante.

No geral, 2018 foi um ano muito bom. Muito, muito bom. Trouxe coisas e pessoas que me apaixonam, fez-me ferver o sangue, deu-me coisas por que lutar, deu-me sorrisos e abraços, trouxe-me as pessoas que faz sentido ter comigo.

Se tiver de pedir um desejo para 2019, quero apenas manter tudo. E crescer. Quero escrever mais, dançar mais, ler mais. Quero mais abraços, mais beijos e mais sorrisos. Quero memórias fortes, daquelas que se guardam para sempre. Quero amar e ser amada. Quero adormecer sempre com o coração em paz. É isso que levo de 2018: a certeza de que pus o meu coração no caminho certo, apesar dos tropeções, apesar de nem sempre a estrada ser plana e sem obstáculos. Quero ter a força que tiver de ter para enfrentar o que vier.

Como dizem os brasileiros... saúde e paz, o resto a gente corre atrás.  

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