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05 fevereiro 2019

Não me calo

Nos últimos dias, tenho visto vários documentários sobre homicídios. Têm sido dezenas de histórias diferentes, todas elas com um elo em comum: nas entrevistas que são feitas aos familiares e amigos das pessoas assassinadas, o que se vê são olhos mortos, esvaziados, sem qualquer brilho. Uma morte enquanto há vida. 

A maioria do que tenho visto é sobre mulheres que foram assassinadas. Namorados ciumentos, amantes enfurecidos, maridos enlouquecidos. Alguns mataram os filhos, além das mulheres. Alguns mataram famílias inteiras.


Não é só nos Estados Unidos. Aqui são cada vez mais as mulheres assassinadas em contextos de relações pautadas pela violência. Este ano, que começou há 36 dias, foram assassinadas 10 mulheres e uma bebé. As últimas vítimas foram a mãe e a filha de uma mulher vítima de violência doméstica, assassinadas pelo ex-genro e pai da bebé. Não consigo imaginar como é que se vive depois disto. Não consigo imaginar o que fica depois de nos levarem a mãe e a filha. Não imagino como seja possível abrir os olhos e ver o que quer que seja. 

Enquanto se virar a cara, enquanto se fecharem os olhos e não se denunciar, isto vai continuar a acontecer. Vai continuar a haver homens que acham que podem tudo, violência verbal, psicológica, física, até matarem mulheres, filhos ou seja quem for que se atravesse no caminho. Acredito que a grande maioria deles chegue a este ponto num contexto de doença mental. Pois que se tratem. Pois que procurem ajuda e resolvam os demónios que tenham para resolver. 


Pela minha parte, o seguinte: já estive do lado de lá. Já ouvi berros, já tive mãos encostadas à cara, já tive muito mais do que deveria ter tolerado. Não denunciei por medo. Talvez o facto de eu não ter denunciado tenha permitido que outras depois de mim passassem pelo mesmo ou por ainda pior do que eu passei, às mãos daquela pessoa. Não sei. Passaram muitos anos e não voltei a sentir-me ameaçada. No dia em que sentir, agirei. E, de caminho, o compromisso de que não deixarei passar em branco nenhuma situação de violência contra mulheres de que eu tenha conhecimento. Mais nenhuma. Porque isto é um crime público precisamente para não exigir denúncia por parte das vítimas e poder ser denunciado por qualquer pessoa que tenha conhecimento das situações.

E é este o meu desafio para quem está desse lado: não se calem. Mesmo que tenham apenas uma suspeita e que a mesma não se confirme. Pessoalmente, prefiro perder amigos do que saber que o meu silêncio pode provocar a perda de uma vida. Consigo, na boa, viver sozinha na gruta. Não consigo viver sabendo que o facto de ter conhecimento de situações de violência perto de mim pode pôr vidas em risco. Provavelmente, não fará grande diferença. Mas se todos fizermos o mesmo, se todos recusarmos o silêncio e o fingir que não sabemos, talvez algumas vidas seja poupadas. Basta uma para já ter valido a pena. Eu não me calo. Não se calem vocês também.

2 comentários:

  1. Concordo. É pena que a justiça demore tanto a agir. Algumas pessoas acabam por desistir.

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  2. Concordo e não me calo!

    Mas nos últimos dias tenho-me deparado com comentários (vários, muitos, demasiados) que descrevem uma realidade (igual em todas as descrições) horrenda e que eu desconhecia totalmente.
    As queixas são feitas, as entidades policiais tratam do assunto com a máxima diligência e assinalando como casos de gravidade séria.... e o assunto termina nos gabinetes dos procuradores com uma palmadinha nas costas dos agressores (levando a que muitas vítimas acabem por retirar as queixas quando se apercebem que pouco ou nada vai acontecer).

    Como é que isto pode acontecer? Como?
    A nossa justiça, definitivamente, não funciona e é preciso fazer com que isto mude!!!!

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Obrigada!