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27 março 2019

A cidade amanheceu sem ti

A cidade amanheceu sem ti.

Ele não quis morrer mas os cigarros e os prazos e os budgets e o stress sempre o stress a pressa sempre a pressa a noite colada ao dia o sono que não se fez os cigarros e os whiskeys o gin e a comida mais um copo brindemos à vida e o stress e sempre o stress e a estrada que não acaba e o sossego que não vem

Não sei como se respira sem ti aqui. Ainda ontem eram os teus passos a entrar em casa, a festa no cabelo do miúdo, o piparote no nariz da miúda, o beijo rápido que me davas sempre, ainda ontem eras tu e o chão desta cidade, tão tua, tão melhor porque tu.

Um sopro. E de repente és a notícia no jornal as condolências a incredulidade as histórias os risos e os medos as angústias as fotografias e o que escreveste o legado e o trabalho. Ainda há bocado eras carne e sangue a correr e agora és o verbo que se finou e mais nenhum dia terá a tua marca, mais nenhum caminho desta cidade soçobrará sob o peso dos teus passos, mais nenhuma memória, nenhuma fotografia, nenhum riso, nenhum medo, mais nenhum medo, e agora penso, será que deste conta e sentiste medo, será que soubeste, será que lamentaste tudo o que não disseste, o que não fizeste, o que não deste, o que não sorriste. Será que lamentaste todos os cigarros e os prazos e os budgets e o stress sempre o stress a pressa sempre a pressa a noite colada ao dia o sono que não se fez os cigarros e os whiskeys o gin e a comida mais um copo brindemos à vida e o stress e sempre o stress e a estrada que não acabou e o sossego que não veio. Será que pensaste em tudo o que não fizeste e no quanto isso faltará a quem fica, a quem lamenta, a quem não acredita que ainda ontem a cidade amanheceu contigo e hoje, já hoje, ainda nem vinte e quatro horas, há vinte e quatro horas reuniões e emails e coisas para fazer e listas e agendas e sítios onde ir, compromissos, coisas, mais coisas, ainda mais coisas e nem vinte e quatro horas depois és um nome numa certidão de óbito, a marcação do funeral, a encomenda de uma coroa que há-de ficar ali até apodrecer, as memórias, amigos reunidos em torno do caixão, a celebração do que foste, o lamento por tudo o que não fizeste e o tempo esse que não chegou para ti

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