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06 março 2019

História de um homicídio

Já aqui disse isto mil vezes: a única coisa de me arrependo na vida é de não ter seguido a minha vontade e ter ido estudar psicologia forense, para acabar com os costados na PJ. Se há coisa que me cativa são psicopatas e sociopatas. Adoro aquelas mentes retorcidas, adoro tentar perceber o que leva aquelas pessoas a fazerem o que fazem, quando fazem asneiras da grossa.

Vai daí, tenho andado entretida com documentários sobre crimes reais (na maioria americanos, mas também ingleses e australianos). No meio disto tudo, deparei-me com uma história de que já tinha ouvido falar em tempos mas que, na altura, não explorei.

Em 2008, uma senhora sociopata obcecadíssima pelo ex-namorado achou por bem matá-lo. Até aqui, nada de novo, é só uma entre muitas. Detalhes: os requintes de crueldade da coisa (matou-o com 27 facadas, uma das quais de orelha a orelha que quase o decapitou e, não contente com isso, ainda pôs a cereja no topo do bolo em forma de tiro no meio da testa - amorosa, não é?) e a forma como se comportou durante todo o processo, incluindo interrogatórios e julgamento. 

Ora aquela esperta decide que é boa ideia começar por ligar para a polícia a dizer que ouviu dizer que ele morreu e queria saber se era verdade. Vai daí, há toda uma conversa telefónica onde ela, calmíssima, fala como se efectivamente não soubesse nada sobre o assunto. Calha também que a polícia já a tinha debaixo de olho porque todos os amigos do morto, quando questionados sobre se haveria alguém capaz de lhe fazer aquilo, apontaram na mesma direcção: a dela. 

Às tantas a rapariga é levada para interrogatório, ainda sem estar acusada de nada. E os detectives fazem aquela coisa clássica que vemos nos filmes: espetam com ela numa sala de interrogatório e deixam-na ali um bocado a marinar. E o que é que ela faz? Canta. Fala sozinha. E acaba a fazer o pino contra a parede. True story.

Começa o interrogatório e ela diz que não estava sequer naquela terra (Mesa, Arizona), que estava em casa (algures na Califórnia, a cerca de cinco horas de distância). Apertam com ela e afinal já estava lá em casa, mas o que aconteceu foi que entraram dois encapuzados (o termo "ninja" é usado várias vezes), um homem e uma mulher, e mataram o tipo. Ela, miraculosamente, conseguiu fugir (e a descrição que ela faz da fuga é de rir, de tão surreal). Apertam mais um bocado com ela e afinal já foi ela que o matou, mas foi em legítima defesa. Com 27 facadas e um tiro. E sem ter ficado com "defense wounds", que é logo uma boa coisa quando se quer usar o argumento da legítima defesa. 

(Sim, este caso fascina-me assim... milhões.)

A senhora lá é detida, lêem-lhe os direitos e dizem que vão tirar a fotografia da praxe. E o que é que ela faz? Pergunta se lhe podem chegar a carteira, que queria dar um jeitinho à cara. (A mugshot dela é linda: está assim de cabecinha ligeiramente inclinada para a direita, olhos de bambi e... a sorrir. O normal quando se é preso por homicídio, portanto.)

Tenho andado a ver o julgamento que está na íntegra disponível no YouTube. O advogado de acusação é brilhante, encosta-a às cordas como ninguém. Mas ela, cortesia da sociopatia dela, não se desmancha. Não há nada que a faça vacilar. Não quebra. As vezes em que chora são claramente encenadas. A primeira vez que a vi chorar no julgamento foi quando apareceram as fotografias da autópsia do senhor. 

[E agora a prova de quão fascinada ando com isto: ontem, no Instagram, numa das contas de medicina forense que sigo, aparecem estas fotos (as da autópsia, bem entendido). Bastou ver a primeira, em que se vê apenas o peito dele, para saber de quem se tratava. Não li legendas. Nada. Foi directo.]

Atalho para o fim da história: a senhora foi condenada a prisão perpétua sem hipótese de liberdade condicional. O senhor continua morto, naturalmente.

(Em caso de curiosidade, Jodi Arias e Travis Alexander.)

Nota final: nada temam. A minha curiosidade não apresenta perigo nenhum, nem para mim, nem para a sociedade em geral. 

10 comentários:

  1. Ainda tenho de ir espreitar esses vídeos do julgamento... E tu tens mesmo de fazer algo quanto a esta paixão!

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    1. Na próxima vida, vou fazer os possíveis por nascer nos EUA e por me pôr a caminho de Langley ASAP. Vou ser a melhor profiler que o FBI já viu. :P

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  2. Sendo uma história semelhante, aconselho-te o documentário Dear Zachary: a letter to a son about is father. O desfecho é só de revirar as entranhas. :(

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  3. Ohhh...como me identifiquei agora com o teu texto. Também A-D-O-R-O esses temas!

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    1. Então, olha... have fun. Só com este tens horas de puro entretenimento garantidas.

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  4. Vi um filme sobre esta história há uns anos e nunca mais me esqueci. Agora fui procurar fotos dela e nunca na vida diria que há ali qualquer coisa estranha, parece tudo menos uma psicopata, manipuladora e assassina. Talvez nos vídeos se consiga perceber, costumo perceber rapidamente que a linguagem corporal não bate certo com o discurso. Aconselhas algum documentário sobre esta histórias?

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    1. Está tudo errado na postura dela, desde que liga para a polícia a dar uma de ex-namorada apanhada de surpresa. O que é que se espera de uma pessoa muito próxima de alguém que foi assassinado? O descontrolo total, o choque, a negação. Nada disso. Impávida e serena. Durante os interrogatórios, idem. Durante o julgamento, idem. Tudo nela grita culpa. Tudo. Precisamente porque se mantém sempre composta e sossegada, extremamente fria e desligada de tudo.

      Sobre isto em particular, já vi horas e horas e horas de programas. É ir ao YouTube, começar uma ponta e acabar na outra. Tens por ali muito com que te entreter... (Vou no 3º dia de julgamento completo, mas já vi mais uma porrada de bocados soltos do dito julgamento.

      Ah, e há uma coisa interessante também: uma entrevista que ela dá, já na prisão, a uma jornalista. E, de novo... tudo nela grita culpa e falta de remorsos.

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    2. Ok, tenho mesmo que pesquisar mais. E a história da Amanda Knox... culpada ou inocente? O que te diz a tua experiência forense?

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    3. Culpada. Mas é um caso que acompanhei há anos e pode haver detalhes que já me passaram. A ver se me debruço sobre o documentário que está no Netflix e reavivo a memória. Mas sim, culpada. (E os pais da Maddie também... mas esses são dos poucos que souberam fazer a coisa.)

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Obrigada!