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16 maio 2019

Sem mas

Quando conheci a Catarina estávamos as duas entre amores e desamores. Éramos umas miúdas armadas em fortes, românticas inconfessas, a sarar feridas mais ou menos superficiais e, nos entretantos, à procura do amor. 

Anos mais tarde, quando a minha vida se encaminhou, a Catarina dizia-me muitas vezes que a minha história a fazia acreditar no amor. Era a história-de-amor-para-sempre. Lembro-me de, no meu casamento, à saída da igreja, ela me abraçar e, as duas de lágrimas nos olhos, voltarmos a falar nisto. Afinal, a história de amor para sempre não foi para sempre, mas foi linda. 

Entretanto, a vida. E eu deixei de acreditar. Em amores à prova de vida, em amores para sempre, em amores reais. Perdi a esperança no amor, porque perdi a esperança em mim. Tornei-me cínica. Passei a olhar para fotografias de casamentos e a ver prazo de validade em tudo. Comento muitas vezes com a Lia o quanto os casamentos - lindos - que ela fotografa me parecem ser todos uma coisa a prazo. O problema não são os casamentos. Sou meu, que deixei de acreditar. Acredito em paixões, em coisas temporárias, em contratos a termo, em coisas fugazes. Mas custa-me muito acreditar que um dia vou encontrar a minha história-de-amor-para-sempre. Isto não devia ser assim mas é. É uma defesa minha, apenas. E é triste.

Há quatro anos, a Catarina encontrou o Pedro. Mentira. O Pedro encontrou a Catarina. E a Catarina, também descrente e desiludida e sem expectativas, permitiu-se ser encontrada. Um mês e meio depois, estavam casados. Não sei se é para sempre. Mas sei que é a única relação em que não sinto um prazo de validade. Olho para eles e vejo a mesma pessoa em dois corpos diferentes. Eu explico: é como se, juntos, fossem uma unidade. São diferentes, muito diferentes. Mas complementam-se. Acrescentam-se. Salvam-se todos os dias e isso é a definição do amor. 

E eu, que acredito em muito pouco, olho para eles e vejo a história-de-amor-para-sempre que me devolve um bocadinho da esperança na vida, em geral. Porque o que há entre eles é amor. Amor. Com as chatices normais das relações reais, com as contas, o sono, as discórdias e o mais que isto de dividir a vida com alguém implica. Mas é um amor sem mas. É um amor inteiro, que aceita, que luta, que cresce. É um amor pleno. Sem mas. E isso é tudo o que se pode querer de um amor, seja ele para a vida toda ou só para um bocadinho.

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