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22 agosto 2019

Achei mesmo que não ia viver para ver isto

Fui crescendo com a ideia (errada) de que a humanidade tinha evoluído qualquer coisinha e aprendido com erros antigos e que o mundo era um lugar (mais ou menos) seguro.

Apesar disto, cresci com o patriarcado a dizer-me que uma mulher não pode fazer mil coisas sob pena de estar a pedi-las e que, fazendo exactamente as mesmas coisas que os homens fazem, ganha uns epítetos interessantes, de puta para baixo. 

Cresci a ouvir dizer que não podia andar sozinha na rua à noite porque podia ser violada. Cresci a ouvir dizer que não posso vestir uma mini-saia e um decote porque posso ser violada. Cresci a ouvir dizer que tenho de saber fazer tudo em casa, para assegurar a dinâmica familiar e garantir que o meu marido continua feliz e contente. E não foram os meus pais a dizer-me nada disto - foi a sociedade.

Sobrevivi. Caguei na maioria destas coisas, mas lá no fundo da minha mente ainda habita um "tranca as portas do carro se andares sozinha à noite". 

Cresci a achar que Portugal era um país pequenino e modesto, já muito longe do Portugal colonialista, pós-Descobrimentos. A grandeza de outrora deu lugar ao cá vamos andando, com a cabeça entre as orelhas. Éramos pequenos, fizemo-nos maiores, voltámos ao tamanho original e está tudo bem.

Achei que não viveria para ver Portugal vencer a Eurovisão, mas aconteceu. Achei que não viveria para ver Portugal campeão de coisa nenhuma, com uma bola nos pés, mas aconteceu. Achei que não viveria para ver a extrema-direita tomar conta da Europa, mas está a acontecer. 

Achei que não viveria para ver o país que pariu Camões, Pessoa, Saramago, Garrett, Eça, Lobo Antunes, Peixoto, Tordo, Natália, Florbela entregue a leitura de hipermercado, a clichés em barda, a pseudo-literatura reles, rasca e pobrezinha, mas aconteceu.

Achei que não viveria para ver um imbecil misógino, racista, sexista e homofóbico tomar conta do país supostamente mais "importante" do mundo, mas aconteceu. E, como se não bastasse, apareceu outro exemplar igual, uns metros mais abaixo, a tomar conta do país que alberga a extensão de terra que sustenta esta merda toda. 

Achei que não viveria para ver a destruição do planeta, do tal mundo mais ou menos seguro. Mas é isso que estamos a viver. Porque o dinheiro, que basicamente, é papel, transformou-se na coisa mais importante. Mas não há dinheiro que pague o ar que respiramos. Não há dinheiro que pague a sobrevivência humana. Bem sei que, pós Peste Negra, houve uma espécie de reequilíbrio na humanidade, bem sei que 7.60 biliões de pessoas é muita gente a respirar o mesmo ar mas é o que é e todos merecemos viver. 

Vejo a Amazónia arder e, ao mesmo tempo, vejo a merda das influencers no Instagram a venderem cremes e vassouras, descontos em hotéis e em boiões de creme e, não me levem a mal, mas fico com a noção clara de que, realmente, se calhar isto está um bocado sobrepopulado. 

Vejo a Amazónia arder e o imbecil do Bolsonaro a sacudir a água do capote, como se fosse o tipo mais sério do mundo e estivesse efectivamente preocupado com o país que lidera. Não está. Ao Bolsonaro, como ao Trump, interessa o dinheiro. Ao Bolsonaro, como ao Trump, interessa o património privado - o seu, bem entendido. Como se, morrendo, fossem para o inferno com um cartão de crédito sem limite de plafond. 

Olho para Portugal e vejo a corja de sempre, o poderzinho, os interesses privados, o nepotismo, o culto do clã. E dá-me vontade de fugir. Para Saturno.

Olho para os meus filhos e tenho pena, mesmo muita pena, do mundo em que eles vão viver depois de nós, a geração anterior, partirmos. E medo, tanto medo. Porque, de repente, os filmes épicos sobre desastres à escala mundial já não parecem tão ficção assim. 

Se calhar já chega. Se calhar já chega de nos preocuparmos com merdas sem importância nenhuma e de começarmos a olhar para o que realmente importa. E o que importa não são os números. São as pessoas. Os 7.60 biliões de pessoas que, estando vivas neste momento, estão mais mortas do que nunca. E se calhar já chega. 


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