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12 setembro 2019

Leonor e as opiniões sinceras

No primeiro fim-de-semana de Agosto deu-se o grandioso evento anual que são as festas da terra da minha mãe. Ora a terra da minha mãe é uma aldeia perdida no Alto Alentejo onde se passa basicamente... nada. 

(Pequeno parênteses: nos anos áureos da minha adolescência, nada era coisa que certamente não se passava ali. Vivi histórias giras, giras, naquela terra, fiz amigos que adoro e com quem, apesar de passar meses sem falar, tenho uma proximidade que não tenho com amigos mais presentes. Era o tempo das noites nas fontes, do pão quente às quatro da manhã, das bebedeiras de vodka que não acabaram em coma alcóolico sabe Deus como, das primeiras paixões, dos bailes até às tantas, das açordas de madrugada, das cartas trocadas durante o resto do ano, de contar os dias para ser Agosto novamente e irmos todos para lá...)

Bom, eu já estou naquela geração que passa as festas lá sentadinha numa cadeira a olhar para o relógio à espera que sejam horas de regressar ao quartel, mas a minha filha está a chegar à idade em que começa a querer viver aquilo de outra maneira. Já começa a ter os amigos de lá, já me desaparece durante meias horas para estar lá sentada num muro, à conversa com os amigos. Não há-de faltar muito para começar a ir beber água às fontes, mas isso é outra conversa.

Este ano, logo na primeira noite, apanhámos uma senhora acordeonista que cantava, vá, mal. Diz aqui a menina para a sua filha:

- Leonor, quando disseres que eu canto mal, lembra-te desta senhora, ok?
- Podes crer, mãe... nunca pensei que houvesse alguém que cantasse pior do que tu...

A coisa ficou assim, sofremos mais um bocado, eu bebi mais uma sangria e o assunto morreu.

Na semana passada, íamos os três no carro quando eu decidi que era boa ideia cantarolar o que estava a dar na rádio. E lá de trás ouço um...

-  Olha, mãe, eu só não digo que és a pior cantora do mundo porque lembro-me bem daquela mulher na aldeia...

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