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18 setembro 2019

Solteira mas não sozinha

Há duas semanas escrevi sobre a minha experiência pós-divórcio, sem aprofundar nenhuma vertente em particular. Recebi imensas mensagens e decidi ir falando sobre a coisa mais em detalhe (obviamente sem entrar em... detalhes).

Acho que, para a maioria das mulheres que passa por um divórcio ou separação (estou-me nas tintas para que nível de casamento viveram - casamento civil, religioso, ajuntamento, namoro, o que for), o maior medo que vem com isto é o de ficarem sozinhas para sempre - o medo de não voltarem a amar, de não voltarem a encontrar alguém que as ame e que as faça felizes. 

Sejamos honestos: salvo raríssimas excepções, ninguém gosta de estar sozinho. A ideia de passar a vida toda a solo pode ser absolutamente assustadora. Mas.

A única base sólida para uma relação feliz é uma felicidade imbatível a solo. Parece contraditório, mas não é. E isto que vou dizer vai soar a merda à la Gustavo Santos, mas é a mais pura das verdades: nós não podemos pôr a nossa felicidade nas mãos de ninguém. Para já, porque é arriscado e porque a probabilidade de dar asneira é gigante. Depois porque ninguém tem de ter a responsabilidade de nos fazer felizes. A felicidade de cada um de nós é da exclusiva responsabilidade de... cada um de nós.

A ideia de termos uma relação não é que ela nos complete enquanto pessoas. É que ela nos transborde. Se nos sentirmos incompletos vamos estar a dar ao outro um poder sobre nós que ele não pode nem deve ter. Se nos sentirmos incompletos, o mais provável é que nos contentemos com a primeira merda que aparecer. E não pode.

Precisamos de uma pessoa que nos acrescente ao todo que nós já somos. Que nos faça ir mais além. Que nos ame com tudo e apesar de tudo. Mas não precisamos de ninguém para vivermos felizes. E enquanto não aprendermos a estar felizes sozinhos, muito dificilmente uma relação correrá bem.

Posto isto, há aqui alguns pontos claramente positivos nisto de se ser solteiro e que vão ajudar a preparar-nos para o que a vida nos trouxer, quando estivermos prontos para amar e para nos deixarmos amar.

Nota prévia: não vivo sozinha e obviamente não estou a incluir os meus filhos enquanto parte de um casal. Eles são a minha prioridade, mas não ocupam o espaço do namorado.

EU

Estarmos sozinhos permite-nos focarmo-nos apenas em nós. Deixamos de ter de incluir na equação as vontades, as rotinas e as necessidades de outras pessoas e passamos a ser só nós. Isto pode ser visto como a epítome da solidão ou como o expoente máximo do self-care. Eu escolho ver por este segundo prisma. Estar sozinha permitiu-me ouvir as minhas próprias vontades e trabalhar em mim. Permitiu mimar-me, cuidar de mim e pôr-me em primeiro na minha lista de prioridades. Estar sozinha fez com que eu visse realmente quem eu sou e obrigou-me a pensar no que quero para mim, em quais são as minhas necessidades e os meus desejos.

TEMPO

Ser solteira é ser dona de todo o meu tempo. Faço o que quero, como quero e quando quero. E se não quiser fazer... não faço. Simples assim. Se quiser jantar às quatro da tarde, janto. Se não quiser jantar de todo, não janto. Se me apetecer ficar uma noite inteira no sofá, fico. O tempo é meu e eu faço o que eu quiser.

ESPAÇO

Pessoalmente, sou dona de um espaço reduzido, pelo que não sinto grande diferença neste aspecto. Mas não preciso de dividir um sofá. E se estiver um calor que não se aguenta, posso dormir atravessada na cama. As gavetas da casa-de-banho são todas minhas. O roupeiro é só meu. Eu decido se quero as almofadas verdes ou azuis, se quero ali aquele quadro ou se quero bancos ou cadeiras na cozinha. E não pergunto a ninguém.

OS OUTROS

Se me apetecer estar sozinha, estou. Se me apetecer sair e conviver, saio. Eu decido. O ritmo é o meu, as vontades, mais uma vez, também. Estar sozinha permite-me conhecer pessoas e dar-me a conhecer (e estou a falar sem segundas intenções).

COISAS NOVAS

Uma das coisas que mais tentei fazer enquanto estive solteira foi conhecer sítios novos e fazer coisas que nunca tinha feito. Claro que é maravilhoso partilhar isto em casal, mas nada impede que se faça a solo. Há uns anos, ainda tinha algum pudor em fazer certas coisas sozinha (como seja ir jantar fora  ou sair à noite), mas deixei de ter. Quero ir, vou. Simples.


O CÉU É O LIMITE

A sociedade impõe muita coisa que as mulheres não podem ou não devem fazer, seja porque são coisas perigosas, seja porque as faz ficar mal-vistas. Guess what? Caguei. Lixei-me para as convenções sociais e decidi que o meu único limite é o da bondade e o da minha dignidade. Não faço nada que prejudique ninguém e não faço nada com que não me sinta confortável. Mas isso vale para quando estou solteira e para quando não estou.

Em resumo: eu usei os meus anos de solteira para cuidar de mim. E só quando me senti verdadeiramente tranquila, segura e em paz com a mulher que sou agora é que me permiti abrir a porta à possibilidade de acrescentar alguém à minha vida. Continuo a sentir-me dona de mim, não abdiquei de nada, porque aprendi exactamente quem sou. E só faz sentido assim.

Ninguém sabe o dia de amanhã. Nada me garante que passe o o resto da vida acompanhada, como nada me garante que fique sozinha. Nunca saberei. Mas sei que estou preparada para ambos os cenários e que, aconteça o que acontecer, hei-de saber lidar.

Portanto, conselho de amiga: invistam em vocês, foquem-se em vocês e mentalizem-se de que nunca ninguém vos vai dar o amor de que vocês precisam. Esse amor tem de estar dentro de vocês. Cultivem-no. 

2 comentários:

  1. Eu gosto de estar sozinha mas não gosto de me sentir sozinha. Quando me separei passei por um tempo em que me sentia sozinha... Depois comecei a tratar mais de mim e deixei de me sentir assim.
    Se algum dia encontrar alguém sei que esse alguém vai acrescentar algo à fase boa que estou a atravessar... Se não for acrescentar, é porque não é "a" pessoa...

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Obrigada!