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04 setembro 2019

Três anos depois

Há dias, quando perguntei no Instagram sobre que assuntos gostavam que escrevesse, recebi vários pedidos no mesmo sentido: falar do divórcio. Como se sobrevive, como se reaprende a viver, como nos reconstruímos.

Esta questão fez-me pensar. Passaram três anos sobre a minha separação. Muita coisa aconteceu entretanto. Eu mudei. A minha vida mudou. Não adoro falar sobre isto porque, para o fazer, tenho de falar de outras pessoas que não eu. Mas vou tentar... 

Então... como é que isto tudo se deu?

No meu caso, fui eu que me quis divorciar e acredito que isso facilite um bocadinho o processo todo. Mas só por um lado, porque, por outro, dificultou tudo ainda mais.

Fui eu que deixei de sentir e de querer. Fui eu que escolhi ser feliz. Foi a decisão mais difícil da minha vida, porque não me envolveu só a mim. Envolveu um (ex) marido e dois filhos. E esta foi a parte dolorosa. Tive de assumir que era eu que estava a desistir daquele projecto de vida. Foi por minha causa que os meus filhos deixaram de viver com o pai e com a mãe. Mas não é sobre o antes que vos quero falar. É sobre o depois.

Quando as águas acalmam, quando deixamos de viver na mesma casa, quando as novas rotinas se instalam, como é que se vive?

No meu caso, talvez por ter sido eu a querer divorciar-me, o processo não foi doloroso. Claro que o dia em que ele saiu de casa foi horrível. Mas depois não me custou. O facto de eu ter sempre vivido naquela casa ajudou. Antes de casar, vivi ali sozinha quase cinco anos. Antes disso, por ser filha única, estar sozinha já me era uma coisa familiar e confortável. As minhas rotinas não mudaram assim muito: já era eu que levava e trazia miúdos da escola, já era eu que fazia jantares e tratava da casa. Era o pai que lhes dava banho, mas eles cresceram e passaram a tomar banho sozinhos. Tenho a sorte de ter a ajuda impagável dos meus pais, mas já a tinha antes de me divorciar.

Mantive as coisas que já gostava de fazer: ler, ver filmes, praticar desporto, sair. Aproveitei os meus fins-de-semana sem filhos para investir em mim. Em muitos deles, entrei em casa na sexta à tarde e saí de casa na segunda de manhã e fiquei apenas no sofá, a ver filmes. Não por não ter onde ou com quem ir, mas por querer estar sozinha. Vi centenas de filmes. Centenas mesmo (em 2017, foram 106; em 2018 foram 147; 2019 já vai com 81). Li muito. Escrevi. Dormi. Jantei cereais. Almocei restos de comida já meio falecida às seis da tarde... sem horários, sem regras, sem ninguém a quem agradar a não ser eu.

Acabei de escrever o meu livro, fiz mil coisas que tinha andado a adiar só porque sim. Claro que a vida não ficou mais fácil - a nível financeiro, por exemplo, complicou-se. Mas fui vivendo um dia de cada vez.

E o coração?

Voltei a apaixonar-me. E demorei quase dois anos a recuperar de um coração partido, mas não trocava o que vivi. Aprendi muito sobre mim e sobre o amor. Houve alturas em que achei que isto de ter alguém que me amasse não era para mim. Duvidei muito de mim e percebi que não tinha (nem tenho) razões para isso. A vida acontece como tem de acontecer, resolve-se mesmo sozinha (como diz a minha Catarina) e eu demorei a confiar. 

Continuo a querer refazer a minha vida. Quero amar e ser amada, mas estou em paz. Vou vivendo. Sou feliz. Sou mesmo feliz. Gosto muito mais de mim agora do que há três anos. Sou infinitamente mais forte e mais capaz. De tudo. Aprendi que renasço sempre. Venha o que vier, eu dou a volta e saio de tudo ainda mais forte. Parece um cliché, mas não é. 

Claro que continuo a ter inseguranças e fraquezas. Claro que nem todos os dias acredito em finais felizes. Mas aprendi que o meu final feliz sou mesmo eu. E é isso que importa. 

Portanto, se estás no meio de um furacão chamado divórcio, o que te quero dizer é que vai (mesmo) ficar tudo bem. Aproveita para estares contigo, para te conheceres de novo, para gostares ainda mais de ti. Foca-te em ti e no que te faz feliz. Respira. E vive um dia de cada vez. Quando deres conta, passaram três anos e já estás em paz.

3 comentários:

  1. Adorei este texto. A energia. A força que há nele

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  2. A paz de espírito não tem preço! Passaram 4 anos no meu caso e nunca me arrependi, se há coisa que quero que a minha filha aprenda é a ter amor próprio. Andei perdida num casamento anos mas aprendi muito sobre o que não quero numa relação.
    Gosto muito do que escreve.

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  3. Sim, a maior lição de todas é mesmo "o meu final feliz sou mesmo eu." Um dia de cada <3

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Obrigada!