Estes Dias | 1

junho 16, 2020




Alzira nunca passara um dia sem lavar o patamar da escada. Todas as manhãs, depois de bebido o café de saco e comido o papo-seco com manteiga, enchia o balde, punha o detergente só no fim, senão a espuma era demasiada e a tarefa não se cumpria em condições, e lavava com esmero os degraus da sua porta até à rua.

Subia já com alguma dificuldade a escada até ao seu primeiro andar, mas recusava-se a trazer pó da rua para casa. Sacudia infinitamente o tapete da entrada, lavava-o quinzenalmente e deixava-o, sempre que a meteorologia o permitia, no parapeito da varanda a apanhar sol. Os vidros, imaculados, eram uma barreira invisível que separava a casa do mundo. 

Vivia entre frascos de amoníaco e lixívia, panos que lavava com sabão azul e branco depois de cada utilização e uma esfregona que desinfectava sempre. Não havia na casa de Alzira um átomo de sujidade, móvel nenhum onde se pudesse escrever. Mas havia silêncio. Havia o silêncio da solidão, da viuvez de muitos anos, da família que não vivia longe mas cujas ocupações e responsabilidades não lhe permitia visitar a mãe, a tia e a avó. 

Alzira não era sozinha, mas era só. As vizinhas, velhas como ela, viúvas como ela, sós como ela, viviam em bolhas imaculadas como a dela e falavam, falavam muito, cabeças fora das janelas, peitos fartos apoiados nos parapeitos e conversa jogada fora, as vidas de toda a gente batidas como bolas sobre uma rede de ping-pong. Alzira, quieta no seu silêncio, fechava as janelas, descia os estores e ligava a televisão e ficava, sozinha como sempre, a passar o tempo para dentro de si.


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