Estes Dias | 2

junho 24, 2020



Esperança era a vizinha da frente e a única de quem Alzira não conseguia escapar. Desistira de tentar há muitos anos, na verdade. Esperança conseguia perceber quem entrava no prédio pela forma como a porta da rua abria. E, sempre que pressentia Alzira, arranjava o que fazer no patamar. Ora era a árvore da borracha que precisava de ser lavada, ora eram as pothos que precisavam de água, ora era a carta que esperava há uns dias e não havia maneira de chegar e, por isso, era melhor verificar novamente a caixa do correio. Alzira tentava contorná-la e falhava quase sempre. Não importava se entrava sem nada ou carregada de sacos, Esperança trataria de lhe tocar ao de leve no ombro e de começar uma conversa — ou um monólogo, para sermos mais precisos — que poderia durar horas. Alzira raramente dizia uma palavra sequer. Enquanto Esperança se desfazia em ideias soltas acerca das vidas alheias, dos seus problemas de saúde, na verdade inexistentes, ou dos filhos, coitados, tão estudiosos e tão desempregados, Alzira trancava-se numa concha invisível e não deixava palavra nenhuma entrar. Era como se fosse surda. Abanava a cabeça a espaços, fazia o gesto de passar por Esperança, rumo a casa, mas a mulher punha-se novamente à sua frente e continuava a falar. Nunca se cansava. Alzira morria de cansaço.

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