Diálogos - escritores em apuros (parte 1)

julho 06, 2020



Quando comecei a escrever a sério, a trave em que eu bati foi esta: os diálogos. 

Muito por culpa das novelas (da TVI), a minha esquisitice com diálogos foi ficando apurada. Se já perderam vinte minutos da vossa vida a ver aquilo, sabem que às vezes há muito engelhar de testa. Da nossa testa. Vergonha alheia pura. Um exemplo: os meus filhos andam viciados na novela "Quer o Destino" (don't ask...) e eu acabo por ver aquilo também. Os diálogos, embora melhores do que se via há uns anos, deixam muito a desejar. Porquê? Porque são escritos como texto escrito e não como fala.

Eu explico. Imaginem o seguinte diálogo:

- Mãe, vou fazer isto assim.
- Mais tarde, o menino dir-me-á se fez bem.
- Estou em crer que sim, mãe.

Embora isto seja gramaticalmente correcto, ninguém fala assim. 

- Mãe, vou fazer isto assim.
- Depois veremos se fez bem.
- Acredito que sim, mãe.

Percebem a diferença?

Este é o problema da maioria dos diálogos: quando os escrevemos, temos todo o cuidado com a gramática e a sintaxe, mas deixamos a verosimilhança um bocadinho de lado. Porque estamos a escrever e não a falar, é fácil isto acontecer. Mas não deve!

Como é que podemos evitar isto? Simples! Na verdade, é muito simples. Requer prática e tempo e muito escreve-apaga-escreve outra vez. Mas é possível. Cá vai...

Oiçam o máximo de conversas alheias possível. Isso mesmo: sentem-se num café e tomem atenção ao que vai sendo dito à vossa volta. Façam o mesmo no supermercado, nos transportes ou com os vossos amigos e família. Isto vai dar-vos material para usarem depois, quando se sentarem a escrever. 

Outro truque imprescindível: quando escreverem um diálogo, leiam-no em voz alta. Sentem-se em pleno século XIX? Se calhar estão a ser demasiado rebuscados. Apaguem e escrevam de novo. Adaptem a linguagem às vossas personagens, evitando situações extremas. É fácil cair em estereótipos e, ainda que devamos usar pequenos detalhes que nos ajudam a construir as personagens, temos de manter a coisa mais ou menos neutra. Podemos pôr uma pessoa da alta sociedade a falar sem que pareça que estamos a ouvir o Marquês de Pombal. E podemos pôr uma rapariga de um subúrbio a falar sem a fazer parecer a pessoa menos educada de sempre. Podemos usar calão, mas convém dosear. E também convém não cair no extremo oposto de pôr uma personagem que fez apenas o ensino primário a falar como se tivesse um doutoramento em astrofísica. 

O segredo é mesmo este: ler e reler os diálogos e torná-los o mais reais possível. É isto que falta às novelas da TVI e é isto que nos transporta para dentro dos livros e nos senta à mesa com as personagens sobre quem estamos a ler. Já repararam?

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