Estes Dias | 5

julho 15, 2020



Alzira sentiu o novelo que tinha no peito enrolar-se cada vez mais. Não tarda seria um gato a vomitar bolas de pêlo. Esperança, sentada num banco da cozinha, olhava tudo à sua volta. Também Alzira não gastara dinheiro em remodelações. Viviam ambas naquele prédio há quarenta anos e a construção antiga é que era boa, não eram cá estas manias novas e modernas, que têm de ser substituídas a cada dez anos. Os suecos podem ser muito bons, mas nunca terão no sangue o desenrascanço dos portugueses.


Alzira olhava para a mulher e pensava como poderia ver-se livre dela, escapar-se daquele incómodo, voltar sozinha para a sua rotina diária. Não sabia como. Não podia simplesmente mandá-la atravessar o patamar e regressar a casa, não agora, com o marido em casa furioso pela esquiva da mulher. Ao contrário de si, mãe de três e avó de cinco, Esperança nunca tivera filhos. Talvez isso explicasse parte das suas atitudes, das intromissões. Aquilo seria certamente falta do que fazer e de com quem falar. 


No minuto em que Esperança lhe pediu um copo de água “e já agora, se tiver aí alguma coisa que se trinque… que eu não como nada desde o pequeno-almoço e já são quase cinco da tarde”, Alzira soube que estava perante um problema maior do que antecipara.

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