O poder do NÃO

julho 16, 2020


Na carreira de um escritor, a palavra mais ouvida é "não". Editoras que recusam livros são a coisa mais comum. Nem todos os livros que se escrevem são bons (e, mesmo assim, muitos destes são editados, mas hoje não vamos falar sobre isso - embora me deixe lixada com F saber da carrada de porcaria que sai todos os dias para o mercado, enquanto livros bons são recusados); nem todos os livros bons encontram uma editora que os queira e que os trabalhe condignamente. Acontece, mas não é o mais comum. O mais habitual são portas que se fecham e muitos "nãos".

Não demorei muito a encontrar editora para o meu livro. Entre submeter o livro à apreciação de umas quantas e receber o meu "SIM", passaram-se cerca de quatro meses. Caso raro por cá. 

Depois começou o processo de edição: eu revi o livro e enviei a minha versão, a editora fez o mesmo, eu validei as alterações propostas, e entretanto meteu-se o COVID, que fez com que a minha edição, programada para final de Maio, ficasse adiada para o segundo semestre do ano. Respirei fundo e aguardei.

Ontem recebi o último email que esperava receber: a editora, tendo em conta a conjuntura actual, entendeu por bem cancelar a edição de vários livros. O meu foi um deles. E assim tive o "NÃO" que eu não esperava ouvir.

Chorei. Chorei muito. Porque amo aquele livro, é exactamente o livro que eu quis escrever e tenho muito orgulho nele. Não será uma obra-prima, não vou varrer um Nobel já no ano que vem, mas é o livro que me empenhei em parir, e que sei que significará algumas horas de descanso para quem o ler. 

Eu sei que a culpa não é minha. É meramente um caso de mau timing. Eu sei disso tudo. Mas dói-me muito olhar para o que construí nos últimos tempos, aqui e no Instagram, e sentir que a Lénia escritora está mais longe de acontecer. Sinto que dei um passo maior do que a perna, que me assumi como coisa que afinal ainda não sou. E envergonho-me por isso.

Ontem permiti-me sentir a tristeza toda. Sem disfarces, sem rodeios. 

Hoje é tempo de plano B. De procurar outra editora, se o contrato com esta ficar sem efeito. De pensar em fazer eu uma edição de autor (eu, não a Chiado Editora e afins). De equacionar a edição em ebook, apenas. Não sei. Sei que vou procurar a janela que se há-de abrir, depois de ter levado com esta porta na cara.

A mim, este "não" está a ensinar-me a procurar caminhos alternativos. Nem que tenha de os escavar eu. 

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1 comentários

  1. Em 1º lugar: como tu própria escreveste, ainda não sabes exactamente se a editora irá terminar o contrato ou apenas adiar a sua edição. Logo aí terás de aguardar por desenvolvimentos.

    Em 2º lugar: tu não falhaste com ninguém. Foste partilhando a tua alegria com quem está deste lado. Nunca há previsão certa do que pode acontecer no futuro. Este vírus foi a "chapada" que grande parte de nós precisava para perceber isso.

    Em 3º lugar: não tens noção disso mas o teu livro (antes de todas as edições por que já passou) já se encontra na minha estante. Não sei se te lembras mas há cerca de 1 ano enviaste-mo. Eu imprimi-o, encadernei-o, li-o, falamos sobre ele e eu arrumei-o juntamente com os meus livros. E sabes que mais? Quando decidires o que fazer com ele, eu quero ser das primeiras a comprá-lo. Porquê? Porque o adorei. Porque tenho orgulho em ti. Porque quero ler a sua versão final.

    Por isso, fico ansiosamente a aguardar por novidades! Beijos! :D

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